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Vítor Aguiar e Silva - A lira dourada e a tuba canora

Por João R. Figueiredo, publicado em 18.5.2008 na secção Recensões Críticas

Vítor Aguiar e Silva - A lira dourada e a tuba canora: novos ensaios camonianos. Lisboa: Livros Cotovia, 2008.

Cabe a Vítor Aguiar e Silva o imenso mérito de ter chamado pela primeira vez a atenção, de modo sólido e informado, para a insustentabilidade de uma concepção meramente classicista e renascentista da poesia de Camões, tal como era defendida pelo status quo académico em 1971. Nesse ano, a publicação da sua tese de Doutoramento apresentada à Universidade de Coimbra, Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa, assinalava a entrada vigorosa do primeiro destes dois conceitos estético-periodológicos nos estudos sobre o século XVI em Portugal. O volume de ensaios agora publicado testemunha o interesse crescente do autor pel’Os Lusíadas nos últimos anos. Ao poema épico são dedicados cinco dos onze artigos, escritos entre 1997 e 2007, dos quais cinco são inéditos, tendo três destes publicação agendada noutros lugares. Já em Camões: Labirintos e Fascínios, de 1994, o A. dedicara dois ensaios à epopeia, nomeadamente ao mito de Actéon e ao episódio da Ilha dos Amores e respectivos significados na economia maior do poema. A estrutura desta nova colectânea assemelha-se em muito à da anterior, com um conjunto de textos de natureza filológica e outro com estudos de carácter hermenêutico. Na primeira categoria, que reconfirma Aguiar e Silva como um exímio connoisseur de Camões, cabem uma magnífica resenha sobre as posições de vários camonistas relativamente à primeira edição de Os Lusíadas, na qual o autor subscreve a posição defendida por Rodrigo da Fonseca, Dias Agudo e K. David Jackson de que houve apenas uma edição princeps com data de 1572, que foi sendo corrigida à medida que os exemplares iam sendo impressos; e, à semelhança do volume de 1994, uns «Epilegómenos» em que o A. retoma as indagações sobre a autoria do soneto «O dia em que nasci moura e pereça», tidos em conta os contributos de vários camonistas entretanto vindos a lume. Merece especial destaque um estudo doravante indispensável sobre a recepção de Camões na comunidade interliterária luso-castelhana até meados do século XVII, com implicações de relevo na sua canonização (por via do seu impacto nas obras de autores como Herrera, Góngora, Lope de Vega ou Grácian) e no estabelecimento do cânone da lírica, para o que contribui a identificação pelo A. de um soneto incluído num cancioneiro do século XVI, compilado no México, como sendo mais uma versão castelhana de um provável original camoniano.

Aguiar e Silva tem por regra de arte iniciar o estudo de um tópico ou a interpretação de um episódio visitando os lugares críticos relevantes, com a erudição irrepreensível que é seu timbre, não obstante o muito episódico lapso quando afirma que «a batalha de Lepanto […] se travou no ano seguinte (1573) ao da publicação de Os Lusíadas» (p. 105), quando, de facto, se travou no ano anterior, i.e., em 1571. O cultivo desta regra de arte tem a vantagem de situar o problema no contexto da discussão prévia e de trazer à colação a literatura (e.g., a mitografia) mais recôndita. A dependência de mitógrafos e filógrafos é, frequentemente, o sintoma de uma posição teórica implícita que afecta muitos destes textos. Refiro-me a um dualismo generalizado que por vezes instabiliza o desfecho da argumentação. Por exemplo, em «A epopeia, Os Lusíadas e as leituras antológicas» (2004), este dualismo é notório na ênfase dada ao «argumento» do poema, que as partes iluminam e ao qual se subordinam, segundo o princípio do círculo hermenêutico. O problema reside justamente na consideração do «argumento» (o quid) separado do modo enunciativo do poema (o quale [para utilizar os termos do A.]), que inclui a mitologia grega e romana, na sua associação à alegoria, como fica patente em «A poética do mito clássico n’Os Lusíadas». Desse ponto de vista, o «argumento» de Os Lusíadas estaria condensado na proposição e na dedicatória: «os feitos bélicos praticados em terra e no mar» (p. 99). Somos esclarecidos, todavia, de que certos episódios ganham em ser analisados como recalcitrantes à totalização imposta pelo «argumento», «introduzindo no discurso desta lógica […] a voz do outro, o ponto de vista do outro, que merecem o respeito, a empatia e a piedade do autor textual e que assim, polifonicamente, contribuem para a representação da diversidade, das contradições e dos conflitos do mundo e da história» (p. 107). Em «Intertextualidade e hermenêutica no episódio do Velho do Restelo», depois de explorar de modo produtivo uma fonte provável desse passo, as obras de Fr. Antonio de Guevara, Aguiar e Silva reafirma aquela ideia, ao defender que a especificidade da passagem reside no seu contraste face ao «argumento», dado que introduz uma voz que não pode ser rasurada nem pela história nem por referências intertextuais. No entanto, não é necessário considerar a existência de um «argumento» que é por vezes «dilacerado» por episódios que escapam ao monologismo. Nesta medida, talvez seja benéfico admitir que Os Lusíadas incorpora uma investigação acerca da possibilidade e dos limites do género a que pertence, constituindo a não consideração deste tipo de movimento em Camões o aspecto menos conseguido dos ensaios de A Lira dourada e a tuba canora. Em «O mito de Baco e o seu significado n’Os Lusíadas» (2007), procura-se uma vez mais articular a parte com o todo, agora no que diz respeito ao inimigo de Vasco da Gama. Aguiar e Silva concede ao subscritor desta recensão a generosidade intelectual de polemizar com alguns pontos interpretativos apresentados num ensaio sobre o Baco de Os Lusíadas, publicado em 2007, pelo que a análise de algumas dessas objecções, que passo a detalhar, declara, in actu, o meu conflito de interesse.

A leitura que faço da estrofe 50 do canto VIII, em que Baco instiga os Mouros a não deixar os navegantes portugueses criar raízes na Índia, comparando-os à luz do sol que é tolerável no princípio do dia mas causadora de cegueira no zénite («Enquanto é fraca a força desta gente, / ordena como em tudo se resista, / porque, quando o Sol saï, facilmente / se pode nele pôr a aguda vista; / porém, despois que sobe claro e ardente, / se agudeza dos olhos o conquista, / tão cega fica quanto ficareis, / se raízes criar lhe não tolheis.»), leva Aguiar e Silva a esclarecer, e bem, que o último verso (ou, se quisermos ser precisos, o pronome «lhe») se refere a «gente» e não ao «sol». A minha consideração dessa construção bizarra, a metáfora de um sol com raízes, não teria fundamento na hermenêutica material reiteradamente defendida ao longo do livro. Acontece, porém, que em «tão cega fica quanto ficareis / se raízes criar lhe não tolheis», ao explanar o símile, Camões descreve a situação dos Mouros, continuando a projectar sobre estes o conteúdo semântico do primeiro termo da comparação: tal como a vista fica cega, também os Mouros ficarão cegos, e não aniquilados ou impotentes. Os termos usados no primeiro membro do símile, o encandeamento crescente do Sol que no seu zénite cega, são importados como termos do segundo membro do símile, os Mouros cegos (e não aniquilados ou impotentes) pelos Portugueses no seu virtual domínio ascendente. (Num movimento quase idêntico, a radical novidade da metáfora romântica consiste em fazer incorporar no veículo o campo semântico do teor.) Admito que possa ser excessivo falar da metáfora do sol com raízes, mas a contaminação entre o sol e os possíveis invasores e, consequentemente, entre a implantação destes e a fixação do sol que deixa de se pôr (tal como o Império Britânico, onde, como sabemos, o Sol nunca se punha, ou, mais próximo de nós, quando Camões, descrevendo a D. Sebastião o Império português que «O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; / Vê-o também no meio do Hemisfério, / E, quando dece, o deixa derradeiro» [I, 8]) porque deixa de haver olhos para o ver, está longe de ser negligenciável.

A minha afirmação (na sequência, aliás, de Hélio J.S. Alves) de que a chegada à Índia foi um fracasso rotundo merece do A. a contraposição da «verdade da história» e da «verdade da história poemática», citando Lus., VIII, 56-7 para mostrar que os planos de Vasco da Gama eram tão-somente de «perfazer o acto do descobrimento e regressar a Lisboa para dar a boa nova ao rei D. Manuel» (p. 144) e preparar o terreno para a expansão imperial. Mas o que o Gama diz que vai acontecer, ou pretende que aconteça, e o que realmente vai acontecer não são necessariamente coincidentes. Até levantar âncora, o Gama ainda trocará palavras desagradáveis com as autoridades locais, será sequestrado, terá de pagar um resgate para ser libertado, e deixa Calecute para evitar as naus vindas de Meca que os Mouros esperam para destruir a armada portuguesa e de que se fala em grande detalhe no início do Canto IX. Do mesmo modo, só dificilmente se pode confiar no narrador quando elogia a prudência do Gama. Hélio J.S. Alves, que surpreendentemente o A. não menciona a este respeito, mostrou à saciedade, naquele que é o livro mais importante sobre Os Lusíadas desde Faria e Sousa (Camões, Corte-Real e o Sistema da Epopeia Quinhentista [2001]), como a crítica camoniana andou distraída durante quatro séculos, ao analisar as estratégias que Camões emprega para dar a conhecer ao leitor a miséria moral do herói que tem à disposição para o seu poema épico. Se Aguiar e Silva considera absurda a convicção de Luís Oliveira e Silva de que o Velho do Restelo fica indiferente à megalomania de Camões, com o fundamento de que esta personagem é uma construção do autor textual, pareceria igualmente espúrio pretender, por exemplo, que as palavras do narrador sejam «corroboradas» (p. 144) pelas de Vasco da Gama em VIII, 68, dirigidas «ao rei de Melinde» [sic] (p. 145), quando também o Gama é uma construção do autor de Os Lusíadas.

Uma outra objecção de Aguiar e Silva merece análise. Contrariando a minha tese nos termos da qual Baco é um alter ego de Camões, o A. declara, «sem hesitações, que o mito de Baco, as acções, os pensamentos e os sentimentos deste deus, ao longo do poema, não estabelecem nenhuma relação dialógica, no sentido bakhtiniano do termo, com o autor textual de Os Lusíadas» (p. 142). Não surpreende que a relação pareça abusiva aos olhos de Aguiar e Silva, uma vez que ele estabelece os termos em que essa relação pode ser concebida. É o A. que invoca o dialogismo, já que nunca descrevi a relação entre Baco e Camões como dialógica, muito menos em sentido bakhtiniano. Aguiar e Silva introduz um critério local que redunda na incomensurabilidade, uma vez que só admite a dita relação entre Camões e a sua personagem no contexto de um esquema conceptual paroquial, num sentido quineano, ou, para utilizar um termo caro ao autor, numa forma mentis que pretende avaliar uma interpretação à luz de uma persuasão crítica que nunca a determinou. Depois de compilar os dados relevantes do mito e de refutar leituras que lhe parecem erradas (nomeadamente a de Fernando Gil acerca da presença deste deus na Ilha dos Amores), Aguiar e Silva conclui, para explicar as motivações do arqui-inimigo do Gama, que «Camões interpretou bem as informações da tradição mitográfica sobre o carácter dúplice, rancoroso e prepotente de Baco, que não tinha piedade nem perdão para com aqueles que se opunham aos seus desígnios, vontades e ambições […]» (p. 146-7). De novo, é a gramática herdada dos mitógrafos, o mito de Baco prévio a Os Lusíadas, que explica o que se passa no poema e valida ou não a interpretação, com a consequência de as complexidades psicológicas que Jorge de Sena diagnostica (bem, segundo o A., no que estamos inequivocamente de acordo) neste Baco em concreto (o pai que vê o seu domínio periclitar e por isso faz tudo para destruir a descendência que o ameaça) surgirem, no fim do ensaio, como uma instanciação daquela gramática mitológica fundacional. Face a uma convenção ou a uma mitologia, Aguiar e Silva vê o uso que Camões dela faz como uma exemplificação, em vez de admitir que todo o poeta maior testa os limites das convenções.

O volume contém ainda três ensaios sobre a poesia não épica de Camões: um sobre a associação do tópico do exclusus amator à forma poética da ode (não sem contaminações da canção petrarquista); outro sobre as três elegias canónicas de Camões; e uma análise da idiossincrasia resultante da utilização de faunos para discorrer acerca do amor na écloga VII. Neste caso, a conclusão é prejudicada por uma dialéctica compensatória dificilmente sondável nos termos da qual Camões terá, nesta composição, por interpostos sátiros, dado «lenitivo e imaginária compensação» à «mágoa, [à] melancolia, [à] solidão, [à] incompletude e [à] insatisfação amorosas» (p. 204) causadas pela sua fealdade.


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