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Manuel Gusmão — A Terceira Mão

Por Fernando J. B. Martinho, publicado em 8.6.2008 na secção Recensões Críticas

Manuel Gusmão — A Terceira Mão. Lisboa: Caminho, 2008

Nunca, porventura, como nesta quinta colectânea, Manuel Gusmão terá deixado tantas pistas para a compreensão da sua poética.

A mão do poeta é, sugere-se no «Codicilo» que encerra o volume, «imaginante». A «alucinação» é o «método» que a conduz, com vista a «equilibrar a imaginação». Um princípio lhe preside: «Não consentir na humilhação da linguagem», nada descurar das suas potencialidades, até estendê-la, pelo poema, «ao máximo de comum» (p. 75). Tudo parte do rigor do verso, da sílaba como fundamento, das «longas e breves» (ibid.), dos acentos. Noutro lugar, dir-se-á mesmo que a poesia é «outra hipótese para a prosódia do mundo». Em «Codicilo», o poeta aponta ainda para um outro princípio insusceptível de negociação – a recusa de um entendimento estreito do «real»:

Não consentir no estreitamento daquilo a que chamam

malevolamente o real. (p. 75)

A inscrição da poesia no mundo só pode ser entendida como diferença, Carlos de Oliveira o lembrou em O Aprendiz de Feiticeiro: «os escritores que contam são aqueles que acrescentam ou opõem alguma coisa ao que já existe». A poesia de Manuel Gusmão, como ele próprio sublinha num texto da terceira parte, no confronto com duas das suas referências maiores, Carlos de Oliveira e Herberto, só pode ter a figurá-la «a outra / mão, a outra, a indefinidamente outra» (p. 71). A «terceira mão», afinal, convocada para o título do livro, a mão que empurra o poeta «para território desconhecido» e o «guia em terra de ninguém» (p. 73). Aí «constela os tempos», e não só: também as vozes e os estilos. A «ciência paradoxal» da poesia em Manuel Gusmão não se contenta com os abismos da subjectividade, tem antes no seu horizonte a largueza da «coralidade». No poema em que expressamente se refere essa «coralidade», fala-se também de «mudanças de voz e de estilo» e de «trocas / de ritmos» (p. 74). A verdade é que a busca dessa dimensão coral implica, entre outras coisas, um dinamismo alucinante na poesia de Manuel Gusmão, que, a bem dizer, nunca encontra um ponto de repouso. Tudo muda: as próprias «paisagens / mudam de lugar», e, ao fazê-lo, «vão mudando o mundo» (p. 46), não deixando, ao mesmo tempo, de mudar com ele. A «sombra ondula», estremecem a noite e o mundo; as próprias «estrofes e o seu desenho» se guardam «em ondas» (p. 45). De tudo é o poema «a câmara da ressonância». Dividem-se, multiplicam-se as imagens na sua imparável alucinação, há fotografias, filmes, o «cinema das palavras» nunca por completo arredado do horizonte desta poesia em permanente metamorfose.

É de metamorfose que igualmente se trata na magnífica sequência de poemas em prosa «Dunas», em que assistimos à transposição da memória da paisagem lunar da Gândara para a dolorosa fenomenologia de uma circunstância autobiográfica. Ou é ainda ela que se insinua no anúncio das mutações que o deslumbramento da observação faz registar em «Euphorbia láctea»:

Áspero, bulboso e carnudo, o cacto parece feito

daquele mesmo leite que promete em todas as suas feridas

por onde dará as flores que se anunciam já nos estilhaços

que de fora ferem a pele ou nas frias lanças erguidas

que a defendem. […] (p. 57.)

Como também não senti-la na melancólica contemplação de fotografias de uma visita a Veneza, ponto alto de uma arte sempre assente na invenção e na descoberta no modo como se faz câmara de ressonância da evanescência do mundo:

O que vieste fazer aqui, a esta cidade submarina e oriental

lacustre e opalescente? Era verão mas chovia e a cidade dissolvia-se

na água triste dos seus canais. (p. 43.)


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