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Fernando Pessoa — Quaresma, Decifrador. As Novelas Policiárias

Por António Apolinário Lourenço, publicado em 23.6.2008 na secção Recensões Críticas

Fernando Pessoa — Quaresma, Decifrador. As Novelas Policiárias — Ed. de Ana Maria Freitas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2008.

Contrariamente ao que acontece com a poesia, hoje praticamente toda editada nos volumes da «Edição Crítica» da Imprensa Nacional-Casa da Moeda ou nas «Obras de Fernando Pessoa» da Assírio & Alvim, grande parte das prosas pessoanas estão ainda por publicar. Com as «novelas policiarias», este, agora editado por Ana Maria Freitas, seria uma das compilações mais óbvias.

É surpreendente, sem dúvida, o elevado número de páginas (477) deste volume 23 das «Obras» pessoanas, e seria frustrante, se não estivéssemos perante uma personalidade como a de Fernando Pessoa, o facto de não ter chegado até nós qualquer relato completo, quando alguns dos treze que compõem o livro estão relativamente próximos da conclusão. A serem completados (e Ana Maria Freitas refere-se, na sua introdução, a duas cartas de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, que testemunham que o poeta se empenhava na finalização de duas dessas novelas no início de 1935), é bem possível que Quaresma viesse a ser uma figura popular entre o público letrado da primeira metade do século XX.

Mas para além das características de Pessoa que todos conhecemos, da sua natural dispersão e compulsão para estar sempre envolvido num número de projectos criativos muito acima da capacidade de concretização humana, temos de levar em linha de conta a forma como decorreu o seu último ano de vida. Justamente quando parecia que a sua obra ia, finalmente, ser organizada e publicada de um modo sistemático — e as cartas a Casais Monteiro esclarecem que as novelas policiárias estariam entre os primeiros títulos a ser revelados —, o poeta vê-se envolvido numa polémica política suscitada pelo seu artigo em defesa da Maçonaria, publicado no Diário de Lisboa, que levaria a que a maior parte das suas energias intelectuais fosse, nos seus últimos meses de vida, concentrada no ódio a Salazar e ao regime ditatorial emergente, ainda que os textos então produzidos só também muito recentemente tenham podido ser objecto de publicação.

Uma das novelas do volume, O Caso Vargas, avantaja-se muito claramente às outras em extensão, representando, com as suas cem páginas, praticamente um quarto do total. Teria a função de apresentar física e intelectualmente aos leitores o decifrador Abílio Quaresma e de expor o seu infalível método de desvendar os mais misteriosos e intricados crimes, tal como Pessoa esclarece num projecto de prefácio às «novelas policiarias». Fumador inveterado de charutos Peraltas, «fechado no seu alcoolismo impenitente e no seu raciocínio já quase automatizado» (p. 32), Quaresma é fisicamente um homem vulgar, de estatura média, excessivamente magro e de barba mal aparada. Solteiro, procura, sem o conseguir completamente, não parecer excessivamente desleixado no vestuário. Não sendo o primeiro caso resolvido por este «médico sem clínica e decifrador de charadas», O Caso Vargas é, porém, «o primeiro em que a polícia tomou (e de que maneira!) conhecimento da existência de Quaresma» (p. 32-33). Por isso teria direito a «volume inteiro», enquanto as restantes aventuras deveriam ser reunidas em volumes com várias histórias. É também neste episódio que Abílio Quaresma trava conhecimento com o agente Guedes, que reaparece, já como chefe Guedes, em vários dos relatos seguintes.

O método de Quaresma assenta simultaneamente no raciocínio dedutivo e no conhecimento psicossomático do criminoso. O autor da Mensagem e do Livro do Desassossego tem assim a possibilidade de discorrer demoradamente sobre temas como a nevrose e a loucura, na sua óptica intimamente relacionados com o crime ou o génio. Na realidade, tanto o génio como a loucura ou o crime são apresentados como resultado de desequilíbrios psiconevróticos e de inaptidão social. São igualmente expostas tipologias de crimes («crimes de temperamento», «crimes de impulso», «crimes de ocasião») e de criminosos, entre os quais avulta o criminoso nato: «No caso do criminoso nato, ou natural, temos a histeria e a epilepsia coexistentes mas fundindo-se, entrepenetrando-se, e entrepenetrando-se porque são congénitas e nenhuma delas induzida, como nos casos do soldado (em que são induzidas ambas) e do passional (em que é induzida uma só, a epilepsia).» (p. 98.)

Nos restantes relatos, bastante mais breves, Pessoa põe fundamentalmente a tónica na exibição dos dotes de raciocínio do seu herói, porque, como diz o Tio Porco, coadjutor de Quaresma na decifração de O Caso da Janela Estreita: «O raciocicinador, se é deveras um raciocinador, tem o escrúpulo da abstracção, e escrúpulo de eliminar o mais possível a sua personalidade» (p. 355).

A estrutura dos relatos, independentemente da sua dimensão é sempre idêntica. Coloca-se inicialmente a situação criminal; em seguida, o leitor é posto ao corrente dos relatórios e/ou peritagens policiais e judiciais; entra finalmente em cena o Dr. Abílio Quaresma, que, analisando os factos que não permitiram às autoridades chegar a qualquer conclusão aceitável, resolve facilmente o enigma.

Dentro do subgénero policial, estas ficções pessoanas são bastante extravagantes, uma vez que Quaresma não investiga mas apenas decifra. Ele é, aliás, um homem com propensão para a doença e a inactividade física (fruto do vício alcoólico e do tabagismo) e várias situações são resolvidas no seu próprio quarto, onde se encontra recluso por causa das suas maleitas. Todas as situações delituosas em que Abílio Quaresma intervém são bastante complexas e engenhosas, e praticadas por criminosos que rondam o génio. A investigação é em geral conduzida (e bem conduzida) por agentes policiais ou judiciais igualmente com inteligência e até brilhantismo; parecem, contudo, situações irresolúveis até ao momento em que Quaresma delas se ocupa. O puro raciocínio e a argumentação são, nas mãos de Abílio Quaresma uma arma invencível: «Contra argumentos, não há factos» (p. 356), diz o Tio Porco subvertendo o aforismo.

Tratando-se de puros e frios exercícios de raciocínio, está praticamente ausente destes relatos, pelo menos da parte de Quaresma, qualquer tipo de afectos ou sentimentos. O que faz correr o decifrador não é a piedade pelas vítimas nem o desejo de justiça. O seu prazer esgota-se na resolução das charadas criminais que é chamado a desvendar, sem qualquer preocupação com o castigo que se possa seguir para os criminosos. Nalguns relatos não há sequer qualquer castigo, porque Quaresma se limita a resolver o caso com o próprio criminoso, revelando compreensão (ainda que não simpatia) por certos actos de vingança motivados por ultraje à honra marital ou familiar. Assim acontece em Tale X / A Morte de D. João, em que o assassino, um agente policial, se vingara do homem que fora responsável pelo suicídio da sua jovem irmã. Quando o homicida pergunta ao decifrador o que pensa ele fazer, Quaresma limita-se a responder: «— Tomar o carro para a Baixa no lugar mais próximo. É a única coisa que tenho a fazer.» (p. 208.)

Também é possível, mesmo que o caso não possa ter perdão, assistir a um exercício de mútuo elogio entre o decifrador e o autor do crime (quase) perfeito. Em O Caso do Triplo Fecho ou o Roubo no Banco de Galicia (um dos relatos mais incompletos do volume) é quase afectuosa a homenagem do criminoso ao seu denunciador: «Dou-me por vencido; mas deixem-me que o diga, não me dou por ingloriamente vencido» (p. 310). Quaresma, apesar da sua frieza e reserva habituais, também não resiste a homenagear a inteligência do rival: «A gente não pode deixar de ter pena de ser por nossa acção que vai parar à cadeia, à Penitenciária ou ao degredo, um homem de grande plano e alcance, — um homem, Guedes, da nossa espécie e da nossa qualidade...» (p. 309). E o chefe Guedes consegue ser ainda mais explícito: «— Imagine o dr. — imagine que a gente tinha a governar o país, em vez dos sacanas, dos paneleiros, e dos filhos da puta que nos governam, um homem como esta cabeça e com este alcance. Eh? O país estava salvo, e dez vezes salvo...» (p. 311).

Uma nota final e (quase) desnecessária: apesar das semelhanças físicas, psicológicas e intelectuais de Quaresma com o seu criador (ou talvez mais precisamente por causa delas), o decifrador não é um novo heterónimo pessoano. É apenas (graças a Deus!) uma personagem de ficção da literatura portuguesa, como Carlos da Maia ou o Barão de Branquinho da Fonseca.


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