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Gonçalo M. Tavares — Aprender a Rezar na Era da Técnica

Por Luís Mourão, publicado em 23.6.2008 na secção Recensões Críticas

Gonçalo M. Tavares — Aprender a Rezar na Era da Técnica. Posição no Mundo de Lenz Buchmann. Lisboa: Caminho. 2007.

A tetralogia O Reino, que este romance encerra, é um caso sem paralelo na ficção portuguesa de hoje. Não sendo o momento de uma análise de conjunto, retenhamos apenas os elementos que transitam para esta obra, e que de algum a modo a enquadram. Tudo indica estarmos na mesma cidade sem nome e sem localização determinada dos anteriores romances. Contudo, os nomes alemães das personagens e a referência lateral mas precisa aos campos de concentração (em Jerusalém), e a uma cidade ocupada e à guerra em curso (em Um Homem: Klaus Klump), subentendem o período da segunda guerra mundial e um país próximo da cultura germânica. Este espaço-tempo difuso subtrai a tetralogia aos avatares do romance histórico, sem deixar de o enquadrar no cerne de um dos traumas maiores do século XX europeu. A cena está montada de molde a que a dimensão reflexiva sobressaia e se torne a matéria primordial destes romances, se bem que sempre apoiada num enredo ficcional que, olhado nos seus mecanismos estritos, é de grande economia, eficácia e até classicismo. Em Aprender a rezar na era da técnica dir-se-ia que estas características se radicalizam: uma escrita despojada, o pensamento predominando ainda mais sobre a história e arrastando-a nos seus lances principais, e uma personagem, Lenz Buchmann, que é o não-herói mais conseguido da galeria de personagens do autor.

Mas talvez o primeiro sinal da radicalidade deste romance dentro da tetralogia que o acolhe esteja desde logo no estranho título que ostenta. Certo que o romance anterior, Jerusalém, também a partir do título e, sobretudo, por um final denso de ambiguidade, colocara já a questão religiosa. Batendo à porta de uma igreja fechada e pedindo permissão para entrar, ao mesmo tempo que se acusava de um crime que não cometera e que em si mesmo fora um acidente, a personagem feminina parecia convocar esse complexo desejo de expiação salvadora que caracteriza grande parte da religiosidade ocidental. Mas a forma como inverte o sentido e o propósito do salmo de onde se retira o título — se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita —, fazendo dele princípio de não-perdão relativamente ao mal de que fora vítima no passado, recoloca a cena religiosa como arena de combate e violência, de que Jerusalém, enquanto cidade dividida pelo conflito de três monoteísmos, bem pode ser o símbolo. Seja como for, esse conflito, de alguma forma intra-religioso porque lidando sobretudo com a responsabilidade e a culpa, é aqui deslocado para uma dimensão mais civilizacional: do que se trata agora é de escavar, nas suas várias direcções possíveis, o que advém aos sujeitos quando a sua posição no mundo tem de ser recortada num tempo a que chamamos «era da técnica».

Lenz Buchmann é o homo faber da era da técnica, quer dizer, daquela época em que o fazer não é já a história de como um corpo humano se vai separando da natureza, fazendo-a em parte para si, mas a plena história de um cérebro que se auto-reconhece como tendo a «forma e a função de uma arma» (p. 22), com a qual aquele «ponto de ruptura» (p. 42) que acontecera entre homem e natureza se torna irreversível. Buchmann está tão consciente desta ruptura e das suas consequências relativamente ao que é a força e o suposto destino de domínio reservado a alguns humanos, que só pode ter um profundo desprezo pelo humanismo. De facto, a ideia de harmonia entre natureza e humano, mesmo segundo a primazia deste, e de reconhecimento mútuo entre humanos, escamoteia, para Buchmann, a luta entre humanos e natureza, entendida enquanto doença e morte, e entre humanos fortes e humanos fracos. É por isso que Buchmann é, primeiro, médico, e depois político. Mas é ambas as coisas de um modo rigorosamente não-humanista. Como médico, e cirurgião, apenas a competência o motiva. Que alguns doentes agradecidos possam pensar que é a bondade que guia os seus gestos só o pode irritar (p. 32), porque isso é precisamente não perceber quanto o seu corpo e as suas mãos são uma performance que nada deve à moral mas apenas a um domínio técnico que triunfa da natureza. Triunfa não em direcção a nada de superior, mas apenas à continuação da sobrevivência e da afirmação desses mesmos que triunfam. É por isso que Buchmann passa do exercício da medicina para a política: para que a sua afirmação não se faça sobre um de cada vez, mas sobre inúmeros simultaneamente. Que esse inúmero ele o pense enquanto corpo esperando o seu bisturi re-ordenador, como antes pensava o corpo doente como Cidade minada na sua racionalidade material, é não apenas um conseguimento ficcional de cruzamento de metáforas e sua literalização paródico-grotesca, mas também o colocar do político numa espécie de patamar de totalitarismo sem causa totalitária. Buchmann quer o poder, sabe como manobrar junto dos poderosos para o conseguir, sabe como convencer os fracos a dar-lho, mas a auto-afirmação que aí procura não visa qualquer compensação psicológica, é uma auto-afirmação humanamente imotivada, ou seja, segue apenas o preceito de sobreviver no mais alto patamar do domínio: questão de técnica com a qual o humano adquiriria uma natureza de outra ordem, agora absolutamente racional, a seu modo maquínica (e daí que a única coisa que repugne a Buchmann seja a perda de controlo, a começar pelo auto-controlo que lhe falha na excitação e no sexo, em que é ele o agido e não o faber, p. 194).

Como não-herói por excelência, Buchmann é aquela personagem capaz de extrair as mais extremas e impessoais consequências lógicas de um momento civilizacional, sendo ao mesmo tempo a sua encarnação e o seu fantoche. Todo o processo da doença, decadência e morte de Buchmann dá-o precisamente como fantoche da era da técnica. Uma simples frase assinala-o: «o cancro tinha-o a ele — o poderoso Lenz estava transformado num objecto» (p. 273). É a era da técnica, com a sua possibilidade de diagnóstico pormenorizado e de combate em múltiplas frentes, que impõe ao humano a possibilidade de um longo e exaustivo tempo de perda de controle. É também a era da técnica — como qualquer outra, aliás — que cria os avatares com os quais substitui as formas de evasão no imponderável das eras anteriores. No momento da morte, e numa cena que mereceria um longo comentário, a televisão está no lugar de deus:

«Estava, pois, só: Lenz Buchmann, deixado para trás, sozinho, com os seus olhos.

A luz, essa, não parava de o chamar. Queria sentir ódio, mas não conseguia. Ela tranquilizava e chamava-o.

Depois talvez tenha existido uma pausa e de novo da televisão veio uma luz forte que o chamou pelo nome. E agora ele foi; deixou-se ir.» (p. 375.)

Sublinharia apenas que Lenz Buchmann morre em presença daquele dispositivo que bem pode servir para marcar precisamente o fim da era da técnica tal como a modernidade a entende. A televisão, isto é, o comunicacional, é já uma outra era, como seriam bem outras as reflexões de Buchmann, o seu ethos de não-herói, se a mediação para o poder tivesse de ser percorrida segundo o império da imagem. Talvez que aprender a rezar, na dimensão disfórica que parece comportar neste romance, seja esse olhar misto de impotência e de consentido não-domínio que alguém lança para a época que lhe advirá, como que chamando bondade àquilo que outros, tão análogos a si, virão a caracterizar rigorosamente como competência técnica.


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