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António Vera — Estrofes Elementares

Por Teresa Moura Guedes, publicado em 23.6.2008 na secção Recensões Críticas

António Vera — Estrofes Elementares. Lisboa: Edições Colibri/2007

António Vera é o nome escolhido por José António Vera de Azevedo para assinar a sua obra poética (constando, no entanto, do Dicionáro de Autores Portugueses na interieza do nome oficial). Ao abordarmos estas Estrofes Elementares, temos de começar por entender um poeta com um percurso invulgar: aos 75 anos de idade António Vera publicou o primeiro dos seus sete livros de poesia (já se encontra outro no prelo), a que deu o título de CursivoMenor (1998). E com inteira modernidade, temática e formal.

A este primeiro livro, apresentado por Maria Lúcia Lepecki, logo se seguiram outros seis: Palavras com Rosto (2000), As Pestanas de Afrodite (2001), Escrito na Margem (2003), Sons Que Falam (2004), De Amor e Desengano (2005) e, em fins de 2007, o livro aqui apresentado: Estrofes Elementares. Mas o mais notável é que já entre 1947 e 1951, António Vera colaborara em várias publicações como a Seara Nova (contos e poemas), a Távola Redonda (poemas), a Atlântico (conto e poemas). Fez ainda parte dos amigos e colaboradores da Árvore.

A explicação para o lapso de tempo entre as duas épocas de publicação encontramo-la nas circunstâncias da sua vida: forçado a trabalhar muito novo, as funções de Inspector nos Serviços de Emigração levaram-no a constantes viagens e à interrupção das suas publicações. Mas isso não conseguiu impedi-lo de escrever (ainda que «para a gaveta», na expressão usada por Maria Lúcia Lepecki); embora, lamentavelmente, uma parte substancial da poesia que escreveu viesse a perder-se, por vicissitudes de uma viagem, em 1975.

Por outro lado, a dolorosa experiência do contacto com os emigrantes, pobres e desprotegidos quase sempre, deu origem a uma vertente de veemente denúncia e protesto contra a «desumanidade» humana, que irrompe em muitos poemas, em todos os seus livros. Não são disso excepção estas estrofes elementares. O longo e vibrante poema intitulado «Propósito», por exemplo, começa por uma revoltada acusação:

sacar dum seu irmão

o lucro

a vida

para lha desperdiçar

vender

gastar

injectar nele a angústia

de chegar

aos limites do corpo

a competir na lide

com armas desiguais

e jamais alcançar

equilíbrio na paz

entre o seu mundo interno

e o seu mundo externo

infinito presente

e futuro fugaz

encher de escória imensa

o universo.

da paródia de amar

fazer um manual

e das religiões um arremesso

depois do arremedo

(p. 119.)

Ao longo da sua obra, a arte poética de António Vera tem vindo a adquirir um grau cada vez maior de despojamento verbal, até lograr que uma só palavra baste para nos fazer voar ao encontro do seu imaginário. Um dos mais fortes traços da sua poesia é a recusa da prolixidade, dado que ele busca em cada significante a essência do significado. E, numa espécie de metalinguagem, o poeta detém-se por vezes na contemplação da função da palavra, como é aqui exemplo o poema «de palavras somos feitos»:

de palavras somos feitos

de palavras nos enchemos

nas palavras nos vazamos

e em artes as transmudamos

sem refazermos o vácuo

que em nossos tecidos-fátuos

mente e alma nos ficou.

(p. 161.)

António Vera recusa o pré-fabricado, o verboso, o banal. Vai, mesmo, ao ponto de recusar a tirania das categorias morfológicas, criando assim efeitos de inesquecível beleza. Para exemplo desta sábia mistura morfológica, recordo uma bela estrofe, a sexta do penúltimo poema (lírico, este) do livro De Amor e Desengano, intitulado «Apresentação da Ausência»:

oh meu buenos aires

oh nelly loira e seda

oh gestos tão só nossos

oh beleza

oh só ter sido o sempre

pouco dos tantos dias.

(De Amor e Desengano, p. 130.)

A amada não é «de oiro e seda»; ela é «loira e seda», assim pintada por meio de dois atributos de categorias morfologicamente diferentes: um adjectivo e um substantivo. O poeta cria, deste modo, um efeito simultaneamente mais artístico e consistente no retrato idealizado, através deste efeito de estranheza que é despertado no leitor.

Mas esta arte original do uso da palavra não se limita ao campo morfológico. Nestas Estrofes Elementares encontramos a surpresa da mistura semântica, no que poderíamos chamar uma espécie de «truncagem» das palavras, no belo poema escolhido para a contracapa e intitulado «Véspera». Num esplêndido malabarismo espontâneo, onde se sente que não há lugar para o trabalho voluntário de construção, o poeta joga aqui com os significados da palavra «tempo», leit-motiv na sua poesia mais lírica:

saí a ver do tempo

e o tempo estava lá:

chovia

olhei pra ver

se tinha tempo

e tempo não havia

(p. 60.)

Referindo-se ao tema do tempo, por sua vez José Fernando Tavares dá um interessante prefácio a este livro, assinalando a presença do «eternamente jovem poeta António Vera» (p. 4). E bem poderíamos fazer-lhe eco ao chamar-lhe, também, o ternamente jovem poeta António Vera…No poema «Canto Nupcial», o poeta confessa-o:

viajo no beijo

duns lábios pintados

de rosas vermelhas

e de amor tão velho

como o meu desejo

sustido em milénios

de três anos feitos.

sou um louco manso

de coração jovem

dum rubi tão fino

por ele me vejo

perdido no bredo

dum loiro maduro

que beijo e rebeijo

(p. 44.)

Muitos destes poemas são contagiantes dum ardor apaixonado, que quase nos faz viajar também no beijo, viajar no dorso, viajar no sonho.

A poesia de A.V. difere do comum: ela participa e aproxima-nos do mundo real (mas que significa «real»?). Poesia tão diferente, que não é fácil aproximá-la da escrita de outros poetas, contemporâneos ou não. A.V. parece criar os seus poemas naturalmente, inevitavelmente, como se as suas palavras fossem a água que brota duma fonte, porque ali nasce e dali tem de correr. Naturalmente. Daí que o título do livro nos informe de que estas palavras aqui publicadas, encadeadas num ritmo de poesia pura, são estrofes «elementares». Mas isto tem de ser entendido no sentido de se tratar de estrofes realmente «essenciais», porque constituídas por palavras essenciais. No fundo, é quase o contrário mesmo daquilo que uma leitura superficial nos poderia fazer crer, se acreditássemos que «elementares» significava aqui primárias ou pobres.

Num efeito invertido de mise en abîme, começam por ser essenciais os temas deste livro, que falam da vida e da morte - os dois pólos que inexoravelmente circunscrevem o Homem. Na temática da vida como na temática da morte, ele dá um largo espaço para o amor, com uma força de tal modo contagiante que, sendo ele um «poeta activo» (porque escreve), nos torna a todos os que o lemos numa espécie de «poetas passivos».

Mas é por vezes bem grave e profunda a expressão da ternura, em parte porque o motivo da perda é um dos mais insistentes. O primeiro poema deste livro intitula-se exactamente «A Perda» (p. 17). Solene e contido, de cadências puras, todo o poema é percorrido por uma desolada sequência de intensas e líricas metáforas de dor pela morte do ser amado:

eram preces os troncos

e os ramos.

eram braços erguidos

para os astros.

eram garras na terra

aprofundadas.

eram versos

em busca duma rima.

era impetrar por água

no deserto.

era esperar

que os olhos reabrisses

para olhar-me.

e a tua boca

não quedasse fria

(p. 17.)

Contudo, a força da alma que se nos apresenta, neste livro como nos precedentes, ultrapassa a dimensão da perda - que é passado -, tal como domina a dimensão do presente ou do próprio futuro, recuperados todos num só momento poético. Este livro voa do presente ao passado, do presente ao futuro. Do presente ao presente.Também quem o lê se sente a voar no espaço infinito da eternidade.


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