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Paulo Franchetti - O Essencial sobre Camilo Pessanha

Por Gustavo Rubim, publicado em 9.7.2008 na secção Recensões Críticas

Paulo Franchetti — O Essencial sobre Camilo Pessanha. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.

Este é o nonagésimo sexto pequeno volume da série «O Essencial sobre...», o que nem é assim tanto, considerando que em Junho de 1986, por exemplo, era composto e impresso na Lousã já o décimo sétimo título da colecção (sobre Cesário Verde). A dado momento o ritmo de saída destes breves ensaios terá baixado significativamente, donde resulta que para alguns será surpresa topar com um dos escassos oitocentos exemplares em que foi reproduzido o precioso livrinho de Paulo Franchetti (e note-se, com olho sociológico, o contraste com a eufórica tiragem de dez mil exemplares para o opúsculo de Joel Serrão sobre Cesário). Nada vem esclarecido, mas a bela sobrecapa de O Essencial sobre Camilo Pessanha sugere ainda, pela aposição de um carimbo, que houve co-edição, ou algo de similar, com a Associação Wenceslau de Moraes, criada em 2006.

O índice revela os seis andamentos em que este trabalho se divide: «Em Portugal», «A China», «O mito do poeta sem escrita», «O verso e a prosa ficcional», «Pessanha tradutor» e, fechando, «A fortuna crítica», antes das notas e da «Bibliografia Referida e Recomendada». A leitura mostrará como, sem prometer nada que não estivesse nas expectativas regulares, este aparente resumo de conhecimentos prossegue aquilo que tem sido marca de Franchetti desde que começou a ocupar-se de Pessanha: não tocar em nada sem alterar sensivelmente tudo aquilo em que toca.

Dos dois capítulos iniciais esperamos uma biografia distribuída pelos dois lugares de residência do poeta, mas já estávamos advertidos pelo autor de que não poderia ser assim sem assistirmos, antes ou em simultâneo, «à apresentação e ao desmonte da biografia corrente» (p. 6). Tal acção crítica aplicada ao terreno biográfico já bastou para fazer entrar este Essencial no cerne das referências obrigatórias da bibliografia passiva de Pessanha. Com o baixo preço (se não for o bónus) de «um tom mais próximo da narrativa de um romance policial do que de uma biografia comum» (ibid.) sobretudo no segundo e terceiro capítulos, recebemos um relato reorganizado e claro dos dados pessoais e familiares mais relevantes desde o nascimento, em Setembro de 1867, até à morte no primeiro dia de Março de 1926. Mas os dois capítulos destacados acrescentam a isso uma crítica sem piedade de textos historicamente responsáveis pela propagação de «um estranho buquê de fantasias insustentáveis» (p. 16) que, perante a escassez «de informações verificáveis» (ibid.), teve como efeito a contracção do (mau) hábito biográfico de «ressaltar aquilo que, no poeta, seria estranho, desajustado, torpe, maldito» (ibid.).

O principal alvo directo é Francisco de Carvalho e Rego, que, assinando Francisco Penajóia e tendo sido aluno de Pessanha no Liceu de Macau, nessa cidade publicou, em 1944, um artigo intitulado «Camilo Pessanha» (está disponível no volume Homenagem a Camilo Pessanha, organizado por Daniel Pires e editado em Macau em 1990, p. 40-44). Trata-se de um escrito ignóbil, que de facto representa o máximo de que foi capaz a medíocre colónia portuguesa de Macau, ou parte dela, para denegrir deliberadamente a figura e a fama de Pessanha. Dada a insignificância histórica do seu autor, não seria porém alvo demasiado fácil para uma crítica a seis décadas de distância? Resumindo o texto e desmentindo várias das suas supostas descrições, Franchetti demonstra que o gesto se justifica plenamente, não só porque a falta de uma boa biografia de Pessanha é com regularidade lamentada por quem não se atreve a escrevê-la, mas acima de tudo porque é indesmentível «o facto de estudiosos de várias gerações terem dado crédito a tal embuste» (p. 20). Entre esses estudiosos está, por exemplo, Guilherme de Castilho, aqui acusado, sem apelo viável, de extrair acriticamente de Penajóia «informação» que reproduziu em dois textos, de 1954 e 1962, sobre Pessanha. Mas a imagem construída por Penajóia estende-se ainda a Gaspar Simões (que Franchetti, apesar de tudo, trata com benevolência), a António Dias Miguel, cujos trabalhos biográficos, num livro já datado de 1956, gozam ainda de boa reputação, e ao próprio Danilo Barreiros — autor do imprescindível O Testamento de Camilo Pessanha (1961) e pessoa a cuja memória Paulo Franchetti dedica este seu Essencial.

O «desmonte da biografia corrente» tem, portanto, um significado muito preciso no domínio da hermenêutica de Pessanha: corresponde a uma nunca antes feita revisão crítica da literatura biográfica disponível acerca do poeta da Clepsydra. É, pois, um gesto devedor da mesma atitude que guiou P. Franchetti quando se decidiu a trocar o estudo sobre a poesia de Pessanha, que tinha projectado para sua investigação de doutoramento, pela edição crítica da Clepsydra que acabou defendendo para obtenção desse grau académico no Brasil. Uma atitude pautada pelo sentido crítico da verdade textual e histórica, que não hesita em enfrentar as mais enraizadas autoridades, instituições e tradições, segundo a ética iluminista da melhor prática filológica. As consequências que daí advêm não serão agora as mesmas, digamos cataclísmicas, que resultaram sobretudo da edição portuguesa, em 1995, da sua contestadíssima Clepsydra, mas os leitores ideais de O Essencial sobre Camilo Pessanha entenderão claramente como o exercício da honestidade em domínio biográfico está governado pela mesma vontade de ler e dar a ler Pessanha, ou seja, como o desejo de corrigir a biografia decorre de uma preocupação anterior com o texto da obra.

Mas os leitores ideais não substituem aqui, porventura, os leitores reais de um género de texto que estaria previamente destinado a quem apenas quer uma informação geral (e, no fundo, superficial) a respeito do tema tratado?

A prosa de Paulo Franchetti está bem longe de ser obscura ou tortuosa, ou de se deixar invadir por incómodas pragas de jargão académico. Também não cultiva o hábito de elaborar perífrases defensivas nas alturas em que só faz sentido escrever directo e contundente. O que a distingue, neste texto, e sempre deveria distinguir quem aceite pronunciar-se sobre o essencial de Pessanha, é o cuidado de não abordar com brutalidade aquilo que requer cuidado e paciência, inteligência subtil e olhar educado e criativo. Entre as páginas 22 e 26, no comentário de algumas fotos de Pessanha bem conhecidas, pode aprender-se o que seja esse olhar. No capítulo quarto, o mais longo, fora a lição de economia discursiva que estava obrigado a constituir, são sensíveis os cuidados para orientar uma primeira, mas não última nem definitiva interpretação dos poucos poemas transcritos. Sabemos que essa leitura vai no caminho aberto pelo livro Nostalgia, Exílio e Melancolia (São Paulo, 2001), mas tal caminho, não só representa do melhor que se tem escrito sobre a poesia e a prosa de Pessanha em anos recentes, como está devidamente assinalado enquanto percurso adstrito à assinatura do autor.

O breve capítulo «Pessanha tradutor» dá apenas uma leve ideia do domínio que P. Franchetti tem sobre o problema da relação de Pessanha com a poesia chinesa. Mas dá ao leitor uma noção clara do quadro em que esse problema se coloca hoje. Aos menos atentos a esta reavaliação de Pessanha como tradutor, recomenda-se que guardem bem na memória a afirmação da «amplitude de referências chinesas do poeta» e todo o sentido das palavras citadas de Yao Jingming sobre este assunto (p. 76-7).

O único traço da prática poética de Pessanha cuja menção me pareceria obrigatória em livro tão constrangido ao «essencial», e que nele está em falta, é a referência ao Pessanha reescritor de poemas alheios: os casos dos poemas «Chorai, arcadas» e «Meus olhos apagados», para a relação de Pessanha com Verlaine, e de «Branco e Vermelho» para a reescrita de Ruben Darío, são os mais evidentes e qualquer leitura deveria inscrevê-los no cerne de obra tão construída como antologia de si mesma. Não me atrevo, porém, a imaginar que a opção contrária possa não ser argumentada por quem cria tão facilmente nos seus leitores ou, pelo menos, neste seu leitor, a impressão de nada fazer sem argumento que o fundamente e valide.


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