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Camilo Castelo Branco - Amor de perdição (edição genética e crítica de Ivo Castro)

Por João Dionísio, publicado em 18.5.2008 na secção Recensões Críticas

Camilo Castelo Branco - Amor de perdição. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2007. Edição genética e crítica de Ivo Castro. Colecção Filologia Portuguesa

O prefácio da 5.ª edição da novela mais famosa de Camilo Castelo Branco termina a imaginar o nosso tempo: «Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.ª edição do Amor de Perdição quasi esgotada.» A 5.ª edição esgotou-se na verdade ainda em vida do autor; por seu lado, a edição agora em apreço, com características singulares no panorama bibliográfico português, justificaria ela o regozijo de Camilo? Um dos méritos (e das teses) do trabalho editorial de Ivo Castro consiste em demonstrar e combater o pressuposto falacioso por detrás de uma tal pergunta. A metempsicose, no campo da edição, não é virtuosa e, ao tentar o leitor com o que o autor faria se estivesse vivo, desvia a atenção do que mais importa: o que o autor fez (e deixou fazer) enquanto viveu.

A visão do que Camilo fez com Amor de Perdição enquanto viveu encontra-se nesta edição genética e crítica. Genética porque permite que o leitor acompanhe a construção da narrativa camiliana, estando apresentado nas páginas-par o texto do manuscrito autógrafo subsistente (hoje guardado no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro) com todas as alterações por que foi passando a novela desde essa etapa inaugural até à redacção transmitida pela 5.ª edição, vinda a lume em 1879 e a última a ter sido revista pelo autor. Com base nesta edição, mas sem que ela tenha sido adoptada cegamente, oferece-se também no trabalho em análise o estabelecimento crítico do texto, fornecido nas páginas-ímpar.

A principal novidade trazida pelo presente livro é a representação total do manuscrito camiliano, no sentido em que, além do texto com que originalmente trabalhou a tipografia de Sebastião José Pereira, são decifradas as palavras e passos eliminados e as emendas correspondentes. Não apenas editado, o manuscrito é também estudado, concluindo-se depor ele a favor de uma redacção da novela em 15 dias, conforme declara Camilo nas Memórias do Cárcere, ao ritmo médio de 20 fólios por dia. Outro resultado da análise do manuscrito é a percepção de que Camilo não tem ao escrever «um plano completo da narrativa, com todos os pormenores das suas peripécias» (p.69) e a caracterização da escrita camiliana sustentada por esta análise vai bastante além do estereótipo da redacção mental como oposta ao artesanato no papel (p. 70).

Há na edição em apreço uma valorização do manuscrito autoral como aquele território onde a genuinidade não deixa margem para dúvidas. É o manuscrito, afinal, que nos abre as portas para a oficina da escrita de Camilo sem interferências exteriores verificáveis, sendo por isso o campo privilegiado para o escrutínio que Ivo Castro conduz dos gestos redaccionais mais importantes do autor. Isto não significa, contudo, que a obra pública, resultante da necessária partilha de decisões do autor com editores, revisores e compositores, não receba o tratamento que lhe é devido. Tanto na edição propriamente dita como nas páginas introdutórias a colaboração de Camilo com estes agentes da publicação motiva observações pertinentes e decisões sensatas. Entre aquelas observações, destaque-se a chamada de atenção para o possível papel de Gomes Monteiro, gerente da livraria Moré, na normalização gramatical e estilística que se percebe na primeira edição. Quanto às decisões especificamente editoriais, o texto da 5.ª edição foi pesado palavra a palavra de modo a que as lições julgadas erróneas fossem objecto de correcção. Acabam por ser muito poucas aquelas que ocasionaram reparação e registo em aparato, mas, como afirma lapidarmente Ivo Castro, «Não é o volume do aparato que torna crítica a edição, mas a acribia da inspecção a que o texto é sujeito» (p. 116).

Este é, em várias acepções, um trabalho exemplar. Em primeiro lugar, porque preenche uma lacuna do campo bibliográfico do Amor de Perdição, sem deixar de retomar o que de mais sólido a linhagem editorial em que se integra (em especial a edição crítica e facsimilada da responsabilidade de Maximiano de Carvalho e Silva, saída em 1983) deu ao público leitor. Em segundo lugar, porque se trata de uma edição que, além de fornecer um texto e as suas diferentes redacções, faz doutrina e propõe terminologia a propósito do corpus estudado e fixado. Neste sentido, estamos perante um trabalho exemplar de Ivo Castro, isto é, que ilustra bem o seu modo de cultivar a crítica textual, um modo longínquo da representação auto-suficiente do texto e adepto da reflexão histórica, doutrinal e técnica. Por isso, este livro insere-se numa tradição complexa, (i) dialogando no mundo camiliano com a edição antes referida de Maximiano de Carvalho e Silva; (ii) reflectindo com as propostas terminológicas de Alfredo Stussi e de Almuth Grésillon (mais perto do primeiro do que da segunda) sobre os processos de escrita no autógrafo de Amor de Perdição; (iii) utilizando a adaptação dos símbolos da edição Giovanni Bonaccorso de Flaubert tal como tem sido aplicada na colecção da edição crítica da obra de Fernando Pessoa; (iv) inspirando-se no modelo de lay out da edição Hans Walter Gabler de Joyce. Esta edição também representa bem outra faceta do pensamento editorial do seu responsável, a do livro entendido como veículo ao serviço de públicos diversificados. Sirva de ilustração a disponibilização de todas as variantes por que passou a redacção da novela nas páginas-par da edição e o agrupamento em bloco destas variantes, de acordo com o testemunho onde elas apareceram, na zona introdutória. São portas de entrada alternativas para objectivos diferentes e possivelmente para leitores com interesses também diferenciados: quem quiser acompanhar as transformações por que passou cada momento da narrativa lerá as páginas-par da edição; quem preferir obter uma imagem de síntese das modificações inseridas em cada testemunho pode dirigir-se à introdução.

O programa por detrás do casamento entre a edição genética e a edição crítica (curiosamente com mais afinidades com a edição histórico-crítica da tradição alemã do que com a crítica genética francesa, avessa à noção de fixar o texto) assenta no princípio de que a fruição estética é sofisticada pela percepção das mudanças por que passou o texto desde o seu lançamento inicial na página até à última redacção controlada pelo autor. Como até ao presente são raros os estudos literários que exploram a informação genética (em número consideravelmente menor do que os ensaios com componente de variantística), Ivo Castro terá achado oportuno explicar o que se pode fazer com esta edição e também mostrar como fazer (cf. pp. 63-68). Por outras palavras, o responsável por esta edição acredita que ela pode ser consumida por leitores despertos para uma interpretação menos ancorada na última vontade do autor como ponto de partida e mais apostada em ver nele um ponto de chegada. Para apoio desta nova modalidade de leitura, o editor argumenta bem a favor da reprodução linear dos episódios de reescrita contra a sua representação topográfica. Com este tipo de solução pretende evitar-se «a dispersão dos sentidos potenciais do texto» (p.118), o que no caso vertente se revela especialmente certo na medida em que a escrita de Amor de Perdição está unidireccionada, quer dizer, orienta-se para uma versão aceite como a última vontade conhecida de Camilo.


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