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Eduardo Pitta — Cidade proibida

Por Edgard Pereira, publicado em 13.8.2008 na secção Recensões Críticas

Eduardo Pitta, Cidade proibida. Lisboa: Quidnovi, 2007.

Um enredo entrecortado de peripécias elegantes e aparentemente frívolas, a futilidade e o poder do dinheiro como elementos de indisfarçável caracterização de classes altas e facções arrivistas. De permeio a refinado repertório de referências culturais, toda uma sequência de relações homoeróticas — arroubos, engates, saunas, fricotes, o fantasma da SIDA pairando assustador. Em foco, o romance Cidade Proibida, estreia produtiva de Eduardo Pitta na ficção de longo fôlego, decisiva contribuição à consolidação do relato de contorno gay em Portugal. A adesão à temática, de forte presença e espessura na produção poética do autor, vem na vertente ficcional desde a admirável trilogia de contos, intitulada Persona (2000). Em roupagem esplêndida, graças a requintado material gráfico e visual.

Jogando com uma trama bem elaborada e sofisticada, a envolver figuras do alto mundo de Portugal, Inglaterra e Moçambique, numa linguagem ágil, apta a dizer directamente as coisas e expandir dinamismo e ironia para todos os lados, o romance apresenta um perfil sem retoques da sociedade burguesa contemporânea. O eixo do imbróglio concentra-se no conturbado relacionamento de dois homossexuais, de nacionalidades diferentes: o bem-nascido português Martim e o plebeu inglês Rupert. O casal, vê-se, é emblemático, o que dá azo ao consenso que diz ser a «bicha» portuguesa «de ordinário afectada pela síndrome da princesa» (p. 87). Diante da exacerbação de interferências externas, a união acaba de forma intempestiva. Para Nora, mãe do protagonista, a débâcle envolve aspectos desgastantes, para além do emocional.

Deu consigo a pensar nas possíveis consequências, espantando-se com o óbvio: ajustar o ressentimento da separação à partilha da economia comum não constitui ónus reservado a casais heterossexuais. Como sair ileso da divisão de bens e de dívidas? Ao menos de filhos estavam livres. E como Rupert era estrangeiro, sem raízes no meio em que se movia, nem lugar a facções haveria. Não era pequena vantagem. Equívoco e maledicência seriam atenuados. A questão da desqualificação social também não se colocava. (p. 106.)

O apelo globalizante não é de menor importância, levando-se em conta as (referidas) viagens em trabalho às cidades históricas mineiras, os desdobramentos da secessão rodesiana, a descolonização lusa em África, os rescaldos da independência moçambicana, entre outras digressões contextuais. Uma parcela significativa do universo urbano desfila em corredores de mármore e jantares exclusivos, exibindo, além das roupas de alta costura, comportamentos, hábitos e preconceitos de uma classe no limite entre a alta burguesia e a aristocracia, pautados por um código tradicional de ostentação e culto das aparências. A percepção de mundo é basicamente burguesa e extravasa situações snobes, nas quais alguns valores tendem à hegemonia, tais como a ascensão social a qualquer preço, o hedonismo inconsequente, o sistema de trocas entre diferentes. Releve-se a esse aspecto, entre outros, o efeito sugestivo do desenlace, em que tacitamente se delineia o carácter intercambiável entre Martim e o jovem porteiro do prédio:

Uma manhã em que não chegou a deitar-se, mal entrou no prédio disse ao porteiro que o acompanhasse ao quarto andar. Ainda no elevador, propôs uma avença (indecente) ao rapaz.

— Duas vezes por semana, nunca aos domingos.

— O doutor é que sabe!

Não se arrependeu. (p. 130.)

Sem incorrer em juízos morais, ao apresentar uma sucessão de burlas, hipocrisia, orgias e desrespeito a princípios éticos de liberdade, o narrador, contudo, não ignora os efeitos devastadores de pequenos sintomas de decadência a solapar os alicerces da sociedade ocidental. Pelo contrário, lá pelas tantas, a mãe do protagonista (sempre elas), por vezes alter ego do narrador, expõe apreensões exasperadas: «Se a reserva de intimidade de um artista cabe toda numa frase kitsch, que juízo fazer da evolução dos costumes?» (p. 107.) O ritmo acelerado da acção — mínima, por sinal, uma vez que se fundamenta em tomadas retrospectivas — implica mudança arbitrária de actores em cena, forçando uma linha de continuidade por vezes superficial, à beira de alguns estereótipos.

Rupert sentia-se bem a viver em Lisboa, e gostava dos portugueses, embora a vida portuguesa continuasse a ser para ele um mistério insolúvel. […] Por graça, mais de uma vez dissera que o Instituto devia promover um seminário sobre as idiossincrasias dos indígenas. «O que não falta são tópicos», assegurava. Um deles era o vício do café. De facto, ir à rua de propósito, nunca menos de três vezes por dia, com o propósito de tomar a famosa bica, parecia-lhe uma obsessão colectiva. O tipo de hábito que um estrangeiro fixa. Numa das cartas que mandou à mãe, uma das poucas em que deixou de lado a habitual parcimónia, explicava: «Tomar a bica significa beber de pé um gole de café morno de qualidade discutível.» Vivia fascinado com estas peculiaridades. Os anos de iniciação haviam sido complicados. Tudo lhe era estranho: a língua, a condução à direita, o clima, a alimentação, o dress code, o ritmo de trabalho. Vencida a primeira etapa, novas perplexidades: hipocondria generalizada, nonsense ideológico, sistema de classes evasivo, comprometimento cívico nulo, invisibilidade da comunidade gay... A luz também o surpreendeu, mas essa foi uma boa surpresa. (p. 39.)

O que poderia ser visto como avanço revela-se um expediente deslocado. Num projecto inovador, como reconhece a contracapa, ao destacar ser esta «uma obra em muitos aspectos perturbadora, na licença da linguagem como no relato de vários interditos», a inscrição, no início, à laia de síntese, de uma «Tábua de Personagens»soa como expediente excessivamente autoritário, obrigando a narrativa a abdicar de seu empenho dialógico. Ainda que seja ampliado o estatuto do narrador-editor, o congelamento dos dados históricos, culturais e psicológicos das personagens se, de um lado, aponta para uma abertura estrutural, convocando componente do texto dramático, por outro, trai a abertura ficcional, condicionando o leitor a aceitar um dado, cuja coerência, urdidura e pertinência verosímil caberia ao texto apenas desenvolver e demonstrar. Se há um compromisso em arejar as fronteiras da cidade proibida, incorporando vozes silenciadas e o dissenso, por conta de violentas repressões e traumas, não seria demais incorporar uma escrita menos autoritária. Negar o contraditório e sufocar a dinâmica da vida e sua contínua legitimação é generalizar e homogeneizar as relações humanas, as quais, daqui para a frente, tendem cada vez mais a desenvolver um carácter híbrido, impuro, imperfeito.


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