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Francisco José Viegas — Se me comovesse o Amor

Por Pedro Sena-Lino, publicado em 13.8.2008 na secção Recensões Críticas

Francisco José Viegas — Se me comovesse o Amor. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007

Poesia da partida e poesia do regresso: ambas se unem, num movimento contínuo e imparável, entre a perda e o encontro, o vazio e o achamento, a acção e a memória. Se Jung esclarece que toda a realidade é psíquica, o acto de partir contém em si uma liberdade misteriosa, do refazer mundo, que está tão incluída na nossa civilização ocidental desde as suas origens: a terra incognita, o outro lado do conhecido.

Poesia da partida e do regresso: essa a de Francisco José Viegas (n. 1962), que neste último livro explora e expande esse tema dual. Movimento que se estrutura na própria metáfora — ela própria significa viagem, transporte — e que começa por organizar-se nos seus poemas num cenário físico ou tema desenhado por entre imagens e metáforas largas:

Terra de musgos e sombras, veredas onde

a música não entrou ainda, nem o calor,

nem outra cor que dê alma aos seus mortos.

Árvores por onde cresce a humidade, o silêncio,

onde passa o voo dos quero-quero vigiando

as fronteiras. Colinas sem inclinação, cavalos

que passam pela chuva transformada em neve

no mapa das serras.[…]

E uma geografia desfeita, subindo pelas serras,

desconhecida, sem a amargura dos abandonados

e sem a doçura dos que se sentem amados.

Enumera os demónios, ou solta-os antes de atravessar

as cordilheiras: lagos, estepe, deserto, colinas onde as florestas

desapareceram para que a neve encontrasse a pedra nua.

Não entregues a alma à literatura; em vez de poeta,

prefere a doçura do geógrafo, do coleccionador de retratos.»

(p. 22-3.)

O tom memorativo deste primeiro desenho estabelece um laço com o leitor; depois completado por uma recorrência à construção na primeira pessoa, que apela ao leitor, já convocado previamente por uma sucessão de imagens que geram um movimento de identificação, levando-nos à adesão por meio do símile:

Neva em Ushuaia por alguns instantes. São os primeiros

sinais do Outono, vindos de El Martial ao fim da tarde.

Os poetas locais compõem os versos adequados à circunstância

Neva em Ushuaia e comovo-me

nas ruas molhadas diante das livrarias e lojas de tabacos,

e digo o nome dos meus filhos, Maria, Manuel, Francisco,

subo as escadarias, vejo a neve diante dos museus, das portas,

vejo os caminhantes que se abrigam nos cafés e olham

com surpresa a primeira neve do Outono

(p. 9.)

Uma das marcas da poesia de viagem de Francisco José Viegas é precisamente a sensibilidade memorialística do seu jogo de imagens, apoiada por um ritmo emocional e sintaxe longa, que alargam o sonoro jogo mental metafórico e instalam uma atmosfera de viagem: como quem parte e revê a terra perdida, ou como quem regressa e confronta a imagem mental com a nova imagem achada:

Diante das páginas vazias, descrevo a cena como se a linha

do horizonte deixasse de existir, o mar deixasse

de respirar. Nesse instante não tenho morada nem

nome, serei apenas a infância, a malícia, a poeira

os cactos à beira das estradas. Descubro a incerteza

e a palavra, o eco que ficou abandonado. Tudo

me desperta, comove, desabriga – um lugar, uma janela,

um desamor, o eclipse

(p. 21.)

Mas a geografia não é apenas física, apenas afectiva; instala-se nestes poemas uma geografia dos livros, mais referente, mais real do que o próprio real, e onde o mundo desenhado pelo processo de viagem surge mais fundo, mais verdadeiro.

Situando-se na geração de 1980, o «problema com o real» que parece cruzar toda a poesia pós-surrealismo e experimentalismo em Portugal («A poesia, contemplativa, não tem culpa / destes acontecimentos ocasionais», p. 8), encontra porém na poesia de Viegas uma resolução pelo percurso memorativo, pela poesia como anotação deste real afectivo e anterior, quase uma natureza da natureza. Não há nesta poesia questões de ensaio sobre a expressão, uma pesquisa interior sobre o «eu» que conduza a rupturas violentas: esta poesia, «colinas sem inclinação» (p. 22), procura na sua construção tranquila, através do poema uma verdade anterior e identificante:

O tempo que há de vir é a substância

do amor, tal como a poesia devia falar

da semana que vem, das penumbras,

dos reencontros depois de muitos anos,

da paisagem que atravessa os sonhos.

(p. 37.)

De notar que alguns poemas do livro se destacam de outros, como «Genealogia», «Caracas», «Europa»; e alguns versos parecem levemente estilhaçar a construção rítmica onde o edifício memorativo desta poesia se alarga, sobretudo os mais longos («O Beijo de Um Académico em Paris» e «O Amor Vulgar»): mas o fôlego imagético de Viegas sobrepõe-se.

Mas, porém, vibra nesta poesia um apelo a uma energia de memória, um movimento de religação com a terra, que se torna central, e coerente na linguagem poética de Viegas: chegar e partir, afinal, é refazer o próprio mundo; é encontrar no eu a própria terra incognita e redescobri-la.


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