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Rui Manuel Amaral — Caravana

Por Luís Mourão, publicado em 13.8.2008 na secção Recensões Críticas

Rui Manuel Amaral — Caravana. Coimbra: Angelus Novus, 2008.

Se há coisa afastada da organicidade do romance, é precisamente o micro-conto: tudo deve começar e acabar em menos tempo do que o necessário para decidir se a marquesa sai ou não às cinco horas. Mas reunir micro-contos em livro pode devir algo mais do que mera compilação arbitrária: nunca se sabe quando o ethos de totalidade que anima a ideia de livro enquanto livro é capaz de arrastar a ficcionalidade fragmentária dos micro-contos para conexões que os dão como capítulos de um romance quase-existindo. Em Caravana, pelo menos, é possível ler algumas preocupações de assemblage que não dirão apenas respeito a recorrências temáticas, que todavia existem e são facilmente explicáveis pelo facto de estes micro-contos pertencerem a um mesmo (e intenso) período criativo. Mas o que indicia intencionalidade na assemblage é o lugar estrutural que algumas dessas repetições ocupam no todo do livro, muito em particular aquela que diz respeito à própria literatura, interrogando os seus dispositivos e os seus efeitos — o que, além do mais, não será de estranhar num autor que publica pela primeira vez.

Tomemos o micro-conto que abre o livro:

«Literatura

Uma macieira que dá laranjas.»

(p. 11.)

O acerto da definição provém do grau de desvio: é suficiente, na medida em que se passa de um género a outro, mas mínimo, porque se mantém dentro da mesma família. Isto prova-se no supermercado, para não irmos mais longe: maçãs e laranjas estão na mesma secção, às vezes lado a lado.

A partir deste grau mínimo de desvio seria possível gerar desvios cada vez maiores, dando conta da pluralidade das literaturas. Se considerássemos uma concepção do tipo «Literatura. Uma pereira que dá nozes», sendo evidente que estaríamos ainda em presença da literatura (o título não engana quanto a isso), o grau de desvio consideravelmente maior (basta atentar em que alguns supermercados têm frutas frescas mas simplesmente não têm frutos secos) indiciaria, talvez, que entramos já em terrenos da paraliteratura. Por esta lógica, seria possível também alcançar uma concepção razoável de não-literatura. Por exemplo: «Não-Literatura. Uma árvore qualquer que secou.» Ou ainda: «Não-Literatura. Uma árvore tão carcomida por dentro que nem se aproveita para lenha, mas que deu paulo coelho.» Esta última concepção, porém, tem a característica muito particular, deveras idiossincrática, de ser demasiado verdadeira, por isso singular, o que não será muito aproveitável quando se quer fazer um sistema de desvios.

Mas passemos para a página 97. O micro-conto intitulado «Maçã» remete-nos de imediato para o campo da definição inicial de literatura aberta por este livro. Só que desta vez a máquina de desvios trabalha em pleno, e por isso mesmo opera também cortes e intersecções. «Um homem decide plantar-se no meio dos campos à espera de dar fruto». Passados tempos, «uma prodigiosa laranja irrompe de um dos lados da cabeça.» Mas alguém explica que aquele fruto é afinal um pêssego. Não, um limão. Então o homem «decide acabar com aquilo. Desfaz em pedaços a maça prodigiosa que tinha nascido da sua cabeça. E desta vez tudo se torna claro a seus olhos. E levantando a voz diz: ‘Então era isso!’» (p. 97).

De alguma maneira, apetece re-começar — Literatura: uma macieira que dá laranjas, não, pêssegos, não, limões, não, maçãs que parecem qualquer um dos frutos anteriores, qualquer coisa cuja vantagem é poder ser desfeita em bocados, como qualquer fruto. E comida. A literatura é sempre da ordem da devoração do mundo e da impossibilidade disso mesmo: o «Então era isso!» será sempre a exclamação que diz a evidência da tautologia (a literatura ser apenas isso, a literatura) e a não menor evidência do segredo claro de tudo (mundo, literatura, demais coisas): desvios. Desvios, cortes, intercessões. Com o que o termo «evidência» tem que ser entendido ele próprio como tendo sido desviado, torcido ou interceptado por outros regimes de significação. Porque se o «Então era isso!» diz também a evidência de que alguma coisa se compreendeu com acerto, haverá que notar que nestas coisas é um pouco secundário saber o que se compreendeu e se isso que supostamente foi compreendido foi de facto deveras compreendido. O regime da verdade é importante, mas simplesmente não é o regime da literatura nem da possibilidade do pensamento (e creio que não é também o da possibilidade de o mundo continuar mundo, mas essa já é outra questão). O regime da literatura é a possibilidade da suspensão e do diferimento talvez interminável do regime da verdade. «Então era isso!» é a energia da literatura, e é uma energia de que o real carece — qualquer verdade sem essa energia é tão só um triste realismo.

Avancemos agora para o final do livro. Quando chegamos ao penúltimo micro-conto, o autor diz-nos que na, verdade, esse conto foi pensado para ser o último. Só isto daria um tratado, e se chegássemos a convocar Derrida, daria seguramente um tratado com uma nota de rodapé que infinitizaria a impossibilidade de terminar o tratado. É uma questão muito ocidental e muito literária, se é que há alguma diferença entre elas: o último que não chega a ser último mas sempre um penúltimo em diferimento, pelo que o sentido se dobra e desdobra, sempre um passo ou vários passos atrás de si mesmo. Chama-se «Os limpa-chaminés», esse micro-conto pensado como último e colocado como penúltimo, e faria sentido o seu lugar estrutural de fecho: uma chaminé é o conector por excelência entre interior e exterior, sai matéria entra imaginário, sendo que o inverso também é literariamente verdadeiro.

Contudo, algo do peso do livro enquanto matriz de organicidade parece aqui reservar o lugar do fim para uma outra operação. O derradeiro micro-conto, «Red delicious», começa de uma maneira que imediatamente convoca alguma rememoração: «Adão trincou a maçã com prazer.» (p. 157.) Mas não é só a cena de origem que assim se apresenta. É também a cena deste livro particular que se re-apresenta para se encerrar. Rememoremos: «Literatura. Uma macieira que dá laranjas.» Bem podemos pressupor: fruto red delicious. Mas de pouco vale pressupor, porque logo entra o desvio: aquela maçã (ou laranja, ou pêssego, ou limão, ou qualquer análogo que prolongue a série), tem bicho, e Adão exige de imediato o livro de reclamações. Sintetizando muito (o mais próximo que me é possível da micro-crítica, digamos) diria que todo este livro é parte do que Adão e seus descendentes escreveram nesse livro de reclamações que Deus se esqueceu de fazer conjuntamente com a criação. E que a caravana é o meio de transporte de quem se desvia do Diabo, que foi quem Deus aqui chamou para se ver livre de Adão e da sua testemunha, Eva.

Ora, os meios de transporte têm a sua empiria própria. E a sua metafísica particular. Esta caravana transporta muita gente de nomes bizarros, tanto mais bizarros quanto é reconhecível o seu quinhão de humanidade, a quem acontece ou não-acontece uma série de situações ou não-situações cuja lógica intrínseca é o preservar na improbabilidade. O que acontece é tão importante quanto o que não-acontece, o que é decisivo é sempre o grau de estranhamento em que tudo se decide ou não decide. Mas estes micro-contos são tudo menos anti-empíricos ou de pura fantasia: praticamente em todos eles, o ponto de ancoragem é um pequeno fragmento indubitavelmente realista, descrito com brevidade e rigor, e que se conecta de forma não menos indubitavelmente lógica ao pequeno desenvolvimento da trama. Que daí resulte o riso, o absurdo, o hiper-realismo, a ambiguidade, nada tem de irrealismo. O autor usa de todos os dispositivos literários e seus efeitos, virando-os contra si mesmos, interrompendo-os a seu bel prazer, lançando-os uns contra os outros. Em última instância, a diferença relativamente ao mundo quando o pensamos sem grelhas securizantes é quase nenhuma. E é precisamente neste aspecto que Caravana deixa entender uma peculiar metafísica. Por nossa defesa, pensamos pouco. Mas o ponto é que há um absurdo tão antigo quanto a humanidade e tão salutar quanto arreganhar os dentes à ordem do universo. Rui Amaral é um autor que sabe que o absurdo é irmão gémeo da lógica do mundo, e não receia experimentar a sua companhia. Não há muitos em língua portuguesa. Devíamos tratá-lo como espécie protegida.


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