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Teolinda Gersão — A mulher que prendeu a chuva e outras histórias

Por Ana Soares, publicado em 13.8.2008 na secção Recensões Críticas

Teolinda Gersão — A mulher que prendeu a chuva e outras histórias. Lisboa: Sextante Editora, 2007.

A história curta ou o episódio anedótico devem ter ocupado sempre lugar na narrativa humana: oralmente, de início, e mais tarde por escrito, incorporados em contextos narrativos congregadores, como o Decameron ou a Bíblia. Mas o conto tal como hoje o conhecemos deriva da historieta de reportagem, ou da narrativa que se escreve a um canto do jornal, como contrapeso à informação de almanaque. Um livro de contos é como a fossilização do que, na origem da sua fixação escrita, aparece associado à dinâmica dos periódicos.

Na literatura portuguesa, a vida recente do conto passa pelas histórias de Alexandre Herculano, que, como diz o narrador de «A Dama Pé-de-Cabra», não inventa a história que narra, antes a leu «num livro muito velho, quase tão velho como o nosso Portugal. E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares». A tradição do conto é, portanto, a tradição do que se diz numa cantiga, de episódios que se narram no tempo de ela se ouvir. Tem havido, desde Herculano até aos nossos dias, uma considerável exploração do género, por escritores mais ou menos poetas, mais ou menos romancistas, mais ou menos conhecidos. E, se considerarmos as alterações às condições iniciais de publicação e divulgação (o conto oitocentista propagava-se à razão da multiplicação da literatura jornalística), podemos afirmar que esta literatura tem tido uma vida salutar. Hoje, as narrativas curtas de ficção continuam, em larga medida, a surgir em jornais ou revistas (por vezes dedicadas em exclusivo à sua publicação); não raramente, confundem-se também com a crónica, outro género disperso pelos periódicos. A reunião de contos em livro é um passo estranho para os contos, se repararmos na descontextualização a que os força. De certa maneira, é como se se obrigasse uma família de gnomos a viver na mansão de um gigante.

Em A Mulher Que Prendeu a Chuva, Teolinda Gersão partiu de três histórias já publicadas em revistas, duas em 2006 e uma terceira com edição inicial em 1984. A essas acrescentou outras onze, presumivelmente inéditas e que, sendo-o, começam por aparecer em livro. Três gnomos desterrados e uma descendência de mini-seres já nascidos na mansão desmesurada. Talvez se pudesse esperar que a sua reunião obedecesse a algum eixo harmonizador, que alguma justificação ideal presidisse a esta coexistência. Porém, parecem estar ausentes deste conjunto elementos que detenham capacidade aglutinadora. Não me refiro aqui a um potencial denominador temático comum a todos os contos (que pode ser apontado, por exemplo, na persistência do espaço urbano como lugar das histórias). A ausência de uma ideia condutora deste conjunto de contos prende-se mais, creio, com a insatisfação de uma expectativa do que é um livro, do que é uma colecção unificada. A multiplicidade dos contos reunidos em volume corresponderia, nessa expectativa, à existência de uma espécie de romance, de uma voz que o percorresse da primeira página à página final. Claro está, tal expectativa implica a crença na voz literária única, na coerência de escrita que passa, antes de mais, por ser de estilo e por este poder definir um autor – tudo conceitos em forte baixa no mercado literário do presente. Apesar disso, a insatisfação permanece.

As várias histórias deste volume são várias no sentido próprio do termo: umas, escritas na primeira pessoa, outras, na terceira, com maior ou menor proximidade relativamente ao pensamento dos protagonistas, noutras (numa só, melhor dizendo, «Conversa»), predomina o discurso indirecto livre, e noutras ainda (noutra só, aliás, «Cidades»), começa por ser o infinitivo verbal o modo dominante de narrar, apenas para se desfazer esse domínio e se regressar à relativa facilidade da terceira pessoa. Mas a variedade que oferecem não resulta em grande vantagem para a qualidade da colecção – não se vislumbra uma motivação forte para as diferenças de narrador, por exemplo. Os contos obedecem a um exercício de género a que falta visão do que seja o mundo de Teolinda Gersão. Será o da solidão de quem hoje vive nas cidades? o da frieza dos contactos e da discrepância dos afectos (mesmo entre familiares)? A dispersão das vozes que contam conduz antes a uma falha na pessoalidade narrativa (e afasta, por isso, o leitor) do que a uma mais-valia literária. Exceptuando «Um Casaco de Raposa Vermelha» (publicado pela primeira vez em 1984), nenhum conto suscita grande interesse narrativo. Tal não advém necessariamente do desinteresse dos temas – a desilusão com o amor ou com a vida actual nas cidades, sejam Nova Iorque, Lisboa, Berlim ou Florença; o confronto com a iminência da morte, suspensa de um resultado médico («Roma», «Se por acaso Ouvires Esta Mensagem», «Cidades»); a crueza das restrições materiais («O Cão», «A Ponte na Califórnia»). Creio, antes, que poderá ter a ver com a tal desunião das várias partes do livro.

Ora, à constatação da ausência de visão de um mundo ou de história que contar segue-se uma pertinente questão teórica para a crítica: como se demonstra essa ausência?


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