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Rosa Maria Martelo — Vidro do mesmo vidro

Por Gustavo Rubim, publicado em 13.8.2008 na secção Recensões Críticas

Rosa Maria Martelo — Vidro do mesmo vidro : tensões e deslocamentos na poesia portuguesa depois de 1961. Porto: Campo das Letras, 2007.

São três os estudos que compõem este mais recente livro de Rosa Maria Martelo e, no conjunto, diz uma nota final, «reflectem alguns aspectos do trabalho» feito «enquanto investigadora do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa» na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde a autora ensina. Esta informação curricular não deve ser tida à conta de mera formalidade, pelo menos por duas razões: a primeira é que há um tom comum aos três textos, dando-lhes a característica experimental de uma investigação em curso ramificando um objecto central de preocupação em explorações próximas mas autónomas; a segunda é a vocação comparatista, que se diria imprescindível quando tal objecto central coincide com o que se pode designar por destino da poesia na modernidade, mas que Rosa Martelo cultiva com particular ênfase para impedir que a concentração da pesquisa na poesia portuguesa se enquiste numa perspectiva estreitamente nacional.

As duas razões não são novidade para quem conheça o trabalho da ensaísta, desde que em 1990 publicou um livro dedicado à obra de João Cabral de Melo Neto. Mas para quem não conhece esse passado, Vidro do Mesmo Vidro é efectivamente aquilo que diz o seu título e, nesse sentido, serve perfeitamente para primeiro contacto com o estilo de pensamento que distingue Rosa M. Martelo no panorama crítico actual. Tais novos leitores serão, talvez, sensíveis a um dos traços mais evidentes da atitude experimental da investigadora: o gosto pela montagem de articulações entre certas linhas teóricas e algumas escritas poéticas que constituem para a leitura desafios consideráveis. Não há propriamente fidelidade a uma direcção da teoria e seus desdobramentos heurísticos típicos; ou fixação numa questão teórica isolada e adopção, a seu respeito, de uma perspectiva tida por vantajosa sobre as rivais. Antes, certa arte de conectar as sugestões contidas numa obra poética, num texto ou numa série heterogénea de textos, com formulações de tipo teórico usadas pela produtividade que pode decorrer da própria conexão.

As diferenças verificáveis entre os três movimentos de Vidro do Mesmo Vidro podem, sem grande margem de erro, ser atribuídas ao exercício desigual dessa arte a que cada um dos estudos corresponde.

O título do primeiro ensaio é igual ao subtítulo do livro: «Tensões e Deslocamentos na Poesia Portuguesa depois de 1961». É aí que vemos Rosa Maria Martelo mais imediatamente inscrita naquela tradição que Fernando Pessoa abriu, faz não tarda um século, com os seus ensaios sobre «A Nova Poesia Portuguesa». Não admira, portanto, que um dos passos recorrentes deste estudo equivalha ao diálogo com outras vozes da mesma tradição, quer dizer, com outros ensaístas ou críticos que se ocuparam da questão da modernidade enquanto ponto de vista soberano ou, no mínimo, incontornável para ler a paisagem poética portuguesa sua contemporânea. Estão nesse caso, além de Eduardo Lourenço, que é aqui interpelado sobretudo por força de um ensaio sobre prosa de ficção — o hoje famosíssimo «Uma Literatura Desenvolta ou os Filhos de Álvaro de Campos», de 1966, mas que Rosa Martelo lembra que só em 1993 chegou a livro (O Canto do Signo) e que «pouca releitura» tem merecido da «crítica actual» (p. 17, n. 10) — alguns escritos de Luís Miguel Nava, Nuno Júdice e Gastão Cruz com que a ensaísta entra em debate logo na abertura do seu texto. Os termos de tal debate e a vontade explícita de o prolongar e redefinir deixam qualquer um na difícil posição de ter de decidir se este é um ensaio em torno do objecto que anuncia (a «poesia portuguesa depois de 1961») ou um estudo movido em alternativa pelas «tensões e deslocamentos» que têm clivado com algum (embora discreto) estrondo o discurso que se ocupa da descrição crítica desse objecto. Talvez ambas as coisas, mas inclino-me sobretudo para a segunda. A expressão «tensões e deslocamentos» é sintoma da dificuldade que a crítica tem enfrentado para conseguir fazer algo que se assemelhe a uma história da poesia recente. E, muito em particular, da crise terminal a que chegou a narrativa (melhor, a história mal contada) da sucessão de acções e reacções que ainda salvaguardaria a hipótese de garantir sempre ao mais recente uma qualquer forma de superioridade dialéctica — isto é, de progresso — sobre o mais antigo.

Em rigor, as quarenta páginas deste estudo ensinam outra coisa, próxima da ideia de que, esgotada a crença na lógica vanguardista que fazia celebrar o Novo pelo Novo, qualquer hipótese historiográfica sobre os últimos cinquenta anos de poesia se irá defrontar fatal e exclusivamente com episódios de retorno, de regresso, de revisitação e revisão. Assim, a solução encontrada consiste em declarar, quanto à diferença que separaria os anos 60 dos seguintes, que «as poéticas emergentes na década de 60 consolidam uma tradição de Modernidade escolhendo a sua vertente mais radical [...], enquanto as poéticas subsequentes preferem reatar a tradição mais remota da Modernidade, em sentido baudelairiano» (p. 41). Em qualquer caso, seria sempre «excessivo falar de ruptura» a propósito de qualquer dessas inflexões «na medida em que ambas respondem ainda a uma mesma problemática instaurada pela Modernidade estética» (p. 40). «Inflexões» é capaz de ser aqui a palavra-chave, visto que se trata de dois momentos em que a modernidade, ao mudar, longe de desaparecer, flecte ainda mais uma vez para dentro de si mesma. O aprofundar desta lógica faz de Rosa Maria Martelo uma das raras pessoas que tira de facto rendimento hermenêutico do Anjo da História, a famosa parábola de Walter Benjamin inspirada no «Angelus Novus» de Paul Klee. Eis uma boa razão para que se releia, agora, «Reencontrar o leitor: alguns lugares da poesia contemporânea», o ensaio precursor destas «Tensões e deslocamentos», incluído no livro anterior da autora: Em Parte Incerta, editado em 2004.

Advirta-se que tal espectralização da modernidade tende a desfazer-se sem piedade de toda a intencionalidade que alguns poetas (e críticos) têm tentado colar ao efeito de boomerang em que se vêem envolvidos na esperança de poder controlá-lo. Um dos temas em cuja leitura Rosa Maria Martelo mais insiste — o «quadro generalizado de perda de espessura do real» (p. 86) glosado em inúmeros poemas — só pode invocar-se para justificar o «empobrecimento da condição ontológica da poesia» (p. 86-7) como aposta poética consciente na condição de mantermos da História uma ideia de racionalidade, até causal, que a parábola de Benjamin não sustenta. Na qualidade irónica e dramática que a distingue, essa parábola não foi inventada para acomodar capitulações perante o ar do tempo. Estou a tentar tirar todas as consequências das melhores páginas deste livro, as do último ensaio, «Veladas Transparências (o Olhar do Alegorista)», onde Paul de Man, Benjamin e Craig Owens são convocados, com fina inteligência pedagógica, para ler a recuperação da expressão alegórica em poetas dos anos mais recentes. Escolhas textuais certeiras, tanto do lado da poesia como da banda da teoria, dão uma qualidade esclarecedora a esta propedêutica do alegorista contemporâneo. Estando em causa, porém, aquilo a que De Man chamou «retórica da temporalidade», esperava-se só que a ironia e seus abismos fosse trazida mais à tona do debate, até porque se sente um pouco a sua falta numa investigação que, perseguindo os fantasmas da modernidade, parece algo deslembrada de Octavio Paz e do modo como fez da ironia marca de nascença naqueles que rebaptizou de «filhos do lodo».

Adivinha-se que reservo juízo menos favorável para «Opacidades, ou nem tanto (Um Exemplo)», o estudo intermédio que se ocupa de Luiza Neto Jorge. Em geral, porque é onde o nexo entre teoria — a ideia de «literatura menor» proposta por Deleuze e Guattari num livro sobre Kafka — e texto poético (no caso concreto, Dezanove Recantos) parece resvalar da articulação produtiva para a aplicação esforçada mas infrutífera. Depois, porque, a ser assim, houve perda: «Luiza Neto Jorge e a Máquina de Oscilar», que integra Em Parte Incerta, já tinha feito de Rosa Maria Martelo responsável pela melhor leitura que a difícil escrita da autora de O Seu a Seu Tempo conseguira arrancar aos poucos que dela se aproximam.


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