Home

Manuel Alegre — Sete partidas

Por Fernando J. B. Martinho, publicado em 13.8.2008 na secção Recensões Críticas

Manuel Alegre — Sete partidas. Lisboa: Edições Nelson de Matos, 2008.

Uma das tradições em que se insere a poesia de Manuel Alegre é a do poeta-cidadão, aquele que se preocupa com o destino da polis. E isso vem já dos seus começos, como logo o dá entender o título da sua primeira colectânea poética, Praça da Canção. Essa condição de poeta preocupado com o País manifesta-se de várias maneiras, uma das quais, e das mais persistentes, passa por uma leitura da História que tem sempre em conta as exigências do presente. Assim, quando no livro de estreia o poeta dá a voz ao Manuelinho para se dirigir a Miguel de Vasconcelos, o leitor percebe facilmente que o destinatário da carta não é outro senão Salazar:

E tu que do País fizeste a triste cela

tu que te fechas em teu próprio cativeiro

tu saberás que a Pátria não se vende

e em cada peito em cada olhar se acende

este vento este fogo de lutar por ela.

(Manuel Alegre, Obra Poética, 1999, p. 84.)

Do mesmo modo, não terá ele dificuldade em perceber que a perspectiva que informa o livro seguinte, O Canto e as Armas, é, como bem observou um dia Jacinto do Prado Coelho, anti-sebastianista, e desenhada em frontal oposição a toda uma ideologia de ilusões imperiais promovida pelo Estado Novo.

A chegada da Democracia não diminuiu o ímpeto crítico da poesia de Manuel Alegre, que continuou a ler a História à luz das contradições e dos desconcertos do presente:

Ninguém sabe o que está a acontecer

perdemos o comboio foi o que foi

(pelo menos é o que dizem os entendidos)

O certo é que os dias estão mais curtos

e há folhas a cair nas sílabas de Setembro.

(Obra Poética, p. 472.)

O projecto poético de Manuel Alegre incluiu sempre o desejo de conciliar ética e estética. Daí que, desde há muito, lhe seja cara uma figura como a do Infante D. Pedro, que, entre as suas divisas, tinha uma que rezava: «Antes tenham remorsos da minha morte, / do que eu vergonha de viver.» Ao Infante dedicou uma das secções do livro Atlântico, de 1981, em que o celebra como exemplo de dignidade, de inteireza, e de destemor perante o «risco» e o «perigo»:

Com D. Pedro morrer em Alfarrobeira.

Contra a calúnia e a vileza com

D. Pedro antes morrer de vida inteira

do que a vergonha de viver. Com D.

Pedro partir de encontro ao risco e ao

perigo. [...]»

(Obra Poética, p. 408.)

Se, na sequência de Atlântico, o que, no essencial, move o poeta é uma espécie de solidariedade histórica, é o estar do lado do Infante, daquele que foi vítima do «veneno que envenena / e torna mais pequena a pátria e a vida» (Obra Poética, p. 408 ), no poema que as Edições: Nelson de Matos acabam de publicar, estamos, um quarto de século depois, mais propriamente perante uma identificação plena do poeta com a figura do Duque de Coimbra, precipitada por circunstâncias recentes do seu percurso biográfico. Há, no entanto, que ter presente que, independentemente das circunstâncias históricas e políticas do seu nascimento, é de um poema que se trata, e é nessa qualidade que deve ser lido. O título, Sete Partidas, com o recurso à metonímia que requer a descodificação do leitor, já aponta nesse sentido. E a presença do famoso poema de Apollinaire «Le dromadaire», como epígrafe, não faz senão reforçar a intencionalidade literária do texto. E do princípio ao fim, ao longo dos doze trechos que constituem o poema, é a escrita do próprio poema que se tematiza e a tudo se sobrepõe. Tanto como o elogio do Infante é o poema o louvor da «palavra que nomeia» (p. 21 ).

Certamente que Manuel Alegre põe no centro do poema o Infante D. Pedro, as suas viagens, o seu trabalho intelectual, a sua grandeza moral, a sua luta por «outro país no país» (p. 31), «outro reino no reino» (p. 20 ), e a sua «hesitação fatal» (p. 15) num momento decisivo, irrepetível, o seu destino trágico. E tudo o poema nos permite reconstituir, entre o elogio e a elegia, a celebração de um herói ímpar e o lamento por mais um fracasso com consequências no nosso «futuro» destino colectivo (cf. p. 15). Mas se a esse entendimento acedemos, e ao do presente do enunciador, também ele marcado por «provocações insultos» (p. 30), é porque tivemos a guiar-nos «a frase certa a escrita nova» (p. 36), a prosódia cuidada, o sortílego encadear dos versos, que fazem com que do poema fique «um tinir de cristal um fogo fátuo um eco / mesmo que não seja mais do que um virar / de página um imperceptível movimento / um acaso um se um mas que muda a vida» (p. 40).


© Fundação Calouste Gulbenkian, 2006-2018