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Horto do Esposo — Edição de Irene Freire Nunes

Por Cristina Sobral, publicado em 19.9.2008 na secção Recensões Críticas

Horto do Esposo — Edição de Irene Freire Nunes, coordenação de Helder Godinho — Estudos Introdutórios de Ana Paiva Morais e Paulo Alexandre Pereira. Lisboa: Colibri, 2008.

Uma nova edição crítica do Horto do Esposo oferece ao editor a possibilidade de, chamando à colação o novo testemunho do Mosteiro do Lorvão (fragmentos designados C, D e E na edição Freire Nunes, apesar de a sequência textual exigir a ordem D-C-E; v. Askins 10, 30-37; Bitagap Manid 3397, 3527, 3530), rever os critérios de edição de Maler(1) de modo a reavaliar relativamente os testemunhos alcobacenses utilizados por aquele editor e editar melhor os passos comuns ao novo testemunho. Deve ainda reapreciar a fixação do texto transmitido apenas por A e B, confrontando fundamentadaamente as leituras de Maler com eventuais melhores opções editoriais. Dado o conservadorismo das normas de transcrição do primeiro editor, a modernização gráfica, não sendo factor preponderante na boa avaliação de uma nova edição, pode ser considerada positivamente se se quiser alargar o público leitor da obra. O cumprimento destes objectivos constitui condição para uma apreciação favorável de uma nova edição, como a de Irene Freire Nunes.

O livro apresenta ao leitor, num único volume, além do texto crítico, uma «Apresentação dos Testemunhos e Critérios de Transcrição», um glossário e um índice onomástico. Como elementos exteriores à edição, oferecem-se ainda dois estudos literários, de Ana Paiva Morais e de Paulo Alexandre Pereira, sobre cujo conteúdo não me debruçarei. A pertinência de juntar estes estudos à edição de um texto de grande extensão, como é o Horto, deve ser discutida, sobretudo se à edição notoriamente faltam elementos fundamentais que lhe são intrínsecos. Sente-se, desde logo, a ausência de uma descrição codicológica e paleográfica dos manuscritos e, sobretudo, de um estudo estemático actualizado com o novo testemunho e de critérios de edição dele resultantes. Quanto a descrição de testemunhos, vemos sob o título «Apresentação dos Testemunhos» (p. lxxix-lxxxi) uma sumária e insuficiente anotação de algumas características do ms. A (existência de rubricas e de iniciais a cores, de alguns reclamos, de notas e desenhos marginais e de perda de fólios). Sobre B, além da referência ao suporte (papel) e à localização do texto no códice, nada mais é dito, salvo a afirmação «No ms. B, [...] o Horto do Esposo é datado de fins do séc. XIV e começos do séc. XV» (p. lxxxi), frase de significado enigmático (refere-se a datação ao texto? ou ao testemunho? em que lugar do ms. se encontra a datação?). A informação sobre o fragmento C resume-se ao suporte (pergaminho), ao número de fólios e à datação. De D ficamos a saber apenas que é constituído por quatro tiras usadas como reforço de lombada de um livro de propriedades, cuja data (1530-1570, p. lxxix) é erroneamente apresentada como data do testemunho. Igual erro de atribuição de data ocorre em relação a E (p. lxxx), sobre cuja natureza não somos informados (trata-se de texto obtido por transferência de tinta, para uma folha de guarda, de tiras de pergaminho que serviam de reforço à encadernação de um livro de demarcações e que só pode ser lido com recurso a espelho). Na verdade, a análise, nos três testemunhos (A, B e D-C-E), de práticas paleográficas e decorativas como a rubricação, a marcação de unidades textuais, a delimitação dos exempla e a anotação marginal (B), por exemplo, aliviariam o aparato crítico da informação sobre estas características regulares dos testemunhos, que ali se perde sem permitir uma visão de conjunto e sem oferecer, como seria desejável, soluções sistemáticas de transcrição. Por exemplo, da p. 3 à 6, encontra-se frequentemente no aparato a indicação «Em B, com marca de início de parágrafo». Uma descrição codicológica articulada com as normas de transcrição, dispensaria este tipo de registo, além de, com maior precisão, esclarecer que a marca aqui indicada é um caldeirão. Impunha-se, na verdade, a descrição do uso de letrinas, maiúsculas e diferentes tipos de caldeirões para marcar unidades textuais. Nem sempre, de resto, este registo no aparato serve para justificar a abertura de parágrafos, visto que esta não segue sempre a presença dos caldeirões, como por exemplo em 8.20 (refiro página.linha da edição). Por outro lado, do fl. 57v ao 60 de B (p. 113-118) voltamos a encontrar caldeirões de dimensões semelhantes, cuja ocorrência já não é registada. Esta é, aliás, funcionalmente igual aos espaços deixados em branco pelos copistas para posterior preenchimento com caldeirões que não chegaram a realizar-se, o que a edição não anota. O registo feito em aparato resulta, assim, em informação pouco útil para o leitor. Outras informações dadas em aparato deveriam caber na descrição codicológica: reclamos (23, n. 2), particularidades da escrita do subtítulo exemplo (11.7, 14.11, 15.5, etc.), a ausência de letrinas previstas em B (11.21) e a anotação marginal, em B, das fontes citadas.

A ausência de um estudo estemático com consequências nos critérios coloca esta edição à margem dos requisitos necessários para ser aceite como um trabalho científico válido. Maler declarara preferir o «ms. A como base da edição», apesar de B, posterior, oferecer «um texto melhor do que A» (Maler 1. xii-xiii). No seu laconismo, são compreensíveis os critérios de Maler: mais próximo gráfica e linguisticamente do original, A é corrigido ope codicum com as melhores lições de B, cujo copista terá cometido menos erros na reprodução do exemplar comum. Já Freire Nunes, na mesma secção em que «apresenta» os testemunhos, declara A como base da edição e afirma que C «confirma a prioridade dada a algumas lições de A em detrimento de B» (p. lxxxi). Supor-se-ia aqui uma efectiva revisão do stemma que permitiria aceitar A, não apenas como o testemunho que transmite mais fielmente a grafia e o estado de língua do autógrafo (ou seja, como testemunho-base), mas também como aquele que oferece as melhores lições, agora confirmadas por C. Porém, nem a editora demonstra com casos pertinentes a afirmação nem a colação dos três testemunhos permite fundamentá-la. Pelo contrário, mostra que D-C, em lugares onde A e B divergem, concorda sempre com B(2). O procedimento de Freire Nunes, além de não justificado, é difícil de compreender. Na edição do texto comum a A, B e D (p. 210-211), o aparato não regista qualquer variante de D, nem sequer quando o seu registo, por se tratar de variante conjuntiva com B em lugares em que a editora escolheu essa lição, poderia reforçar argumentos para a selecção feita. A menção de D no aparato fica-se pelo assinalar dos pontos onde começa e acaba o texto do fragmento. Já em relação ao fragmento C (p. 267-271), o procedimento foi diferente, embora esteja longe de ser coerente. Algumas lições de C são registadas (por exemplo, 267, n. 5, 6, 7, 8, 9, 11, 15; 268, n. 8), mas muitas outras ficaram omissas, incluindo algumas que, de acordo com os critérios que fundamentei («Para Uma Nova Edição …»), poderiam, pelo seu estatuto, concorrer com A e B na fixação do texto: por exemplo: 268.2 matava / matauã C; 268.11 deve o homem / deue homẽ C; 268.18 parades / parardes C; 269.18 e a prata / e prata C; 270.12 é soberva / he a soberua C. Uma, em especial, parece-me gravemente omissa, uma vez que reúne boas condições para ser preferida: 270.10 cousas e razões / causas e Razões C (cf. «Para Uma Nova Edição …»). Em lugar semelhante, agiu Irene Freire Nunes de modo diverso, preferindo C (semelhança) a A e B (lembrança, 268, n. 9). A escolha é acertada e significa que a editora concedeu à lição de C o estatuto de concorrente com A e B. O que não se compreende é porque o fez aqui e noutros lugares em tudo equivalentes não discutiu a questão nem forneceu aos leitores a informação necessária para a discussão. Na fixação do texto, a editora aceita a validade da lição de C perante erros manifestos de A e B (268, n. 6), mas onde a evidência de erro não é tão imediata tanto opta (sublinhe-se, sem qualquer justificação) por lições de B e C contra A (267, n. 5, n. 9; 268, n. 15, onde não regista a lição de C; 269, n. 1, onde não regista a lição de B, e n. 13, onde não regista a lição de C; 270, n. 9, onde não regista a lição de C), como de A e B contra C (267, n. 6, n. 11, n. 15; 268, n.8; 271, n.4), ou de A contra B e C (267, n.16; 268, n. 15, onde não regista a lição de C), sem que o critério seguido corresponda à anunciada preferência por A nem corresponda, ao menos, a premissas perceptíveis. Isso mesmo fica claro ainda em 269.17-18, para cujo texto a editora dispunha de um testemunho (C) que oferece lição coerente em toda a longa citação de S. Bernardo: carregã aquele que as possue e ençujam aquel que as ama e atormentã aquel que as perde. Mesmo assim, prefere uma solução mais difícil (carregã aqueles que as possuem e ençujam aqueles que as amam. E atormentam aquele que as perde) que permite conservar a maior parte das lições comuns a A e B mas que exige correcção (atormentam / atormenta AB) e que não sobreviveria sem a validação (discutível) da pontuação de A. Nos erros que remontam ao arquétipo, como é o caso da lacuna E por em diz: Filhos, registando o espaço deixado em B e C (267, n.17), impunha-se a tentativa de restituição (Sam Paulo), que, aliás, não seria difícil, identificada que foi a fonte por Maler. De 271.11 a 272.7, pode-se ainda contar com o testemunho de C mas agora limitado à colação com B, devido à falta de um fólio em A. Também aqui predomina a ausência de critério coerente na selecção de variantes substantivas: C é igualmente preferido ou preterido em adiáforas (271.12 ante que em todalas / ante que todallas B; 271.14 anexo e conjunto / meyo e conjunto C, cuja variante não é registada; 271.15 pelas / polas B; 271.16 em si meesmo / a ssy meessmo C, cuja variante não é registada; 272.3 aqueles que / os que C, cuja variante não é registada). A dependência directa de C do arquétipo recomendaria que, em variantes adiáforas, lhe fosse dada preferência. Apesar de continuar a omitir variantes de C (272.4 em eles / en ele C ), a editora recorre a este testemunho para corrigir acertadamente alguns erros de B não corrigidos por Maler (271.17 Ajuntadas / ajuntados C; 272.2 nom seja / nõ seiam C ). Em contrapartida, rejeita sem discussão variantes linguísticas de C que Machado3 atesta no séc. XIV e que, portanto, deveriam remontar ao arquétipo: 271.22 24 luxuria / luxaria C. Conviria discutir, antes de mais, porque se toma como testemunho-base para a fixação linguística e gráfica o testemunho B, mais tardio e mais distante do arquétipo. No passo em análise existem lacunas que, sendo de mais difícil restituição do que as acima mencionadas, deveriam, pelo menos, ser assinaladas no corpo do texto e não apenas registadas em aparato (272, n. 7 e 8), onde, aliás, o foram de forma ambígua e incompleta. Na n. 7 omite-se a existência de lacuna igual em C e, na n. 8, entende-se que o que se completa segundo C (que) permite suprir a lacuna, o que não é verdade, uma vez que o fragmento apresenta exactamente o mesmo espaço em branco de B.

No texto transmitido apenas por A e B, encontramos igualmente procedimentos que carecem de coerência. Limitando, por restrições de espaço, a análise apenas às páginas 3-57 da edição, nota-se, em primeiro lugar, a fixação de variantes linguísticas de B, quando a anunciada prioridade de A e a sua anterioridade cronológica obrigariam à fixação das suas variantes gráficas e linguísticas. Por exemplo:

8.10 Actos / autos A / actos B / Autos M (= Maler )

34.23 desaparecerom / desparecerõ A / desaparecerõ B / desparecerõ M

53.11 logica / losica A / logica B / losica M

53.14 pola / pella A / polla B / pella M

54.9 foram / forõ A / forã B / forõ M

56.11 creligo / clerigo A / creligo B / clerigo M

O maior problema que se coloca ao editor na fixação do texto são as variantes adiáforas. Nestes casos, M adopta principalmente dois critérios: a opção pelo testemunho-base (A) ou a decisão de acordo com as fontes traduzidas ou compiladas (ainda que o não declare explicitamente); na verdade, a transcrição das fontes no vol. 2 da edição Maler presta, neste caso, auxílio precioso ao leitor, pois permite-lhe avaliar a adequação da opção do editor. Faltando na nova edição este instrumento, e na ausência justificações, as opções da editora aparecem como um resultado arbitrário. Não nos é explicado porque foi que, contra o critério definido, não se deu prioridade a A em muitos loci critici. Por exemplo em:

10.10-11 E qual / O qual A / E qual B / O, qual M

12.15 o nome de Jhesu / o nome A / o nome de ihesu B /o nome M

14.14 Senhor Jhesu Christo / Senhor Jhesu A / Senhor Jhesu Christo B / Senhor Jhesu M

34.11 o ocidente / hocidente A / ho ocidente B / Hocidente M

38.18 de Jhesu Christo / de Christo A / de Jhesu Christo B / de Christo M

O apoio nos testemunhos indirectos (F = fontes) dá maior credibilidade às opções de M em lugares como:

11.25 desemparado / desenparado A / desesperãdo B / desesperãdo M / desesperando F

11.25 per a vida / pera vida A / pera vida B / pera vida M / ad vitam F

11.22 em na tua boca / ẽ tua boca A / em na boca B / emna boca M / saliat in os F. A opção de M é reforçada ainda pelo facto de o destinatário ser plural, supondo vossa e não tua. Note-se que «Completamos segundo B e M», no aparato, induz erradamente o leitor a crer que a leitura de M é coincidente.

18.11, 14, 15 ceeo / ceeo A / cerco B / cerco M / circulum ipsius lune F

23.6 estava ante / estava ante A / estaua antre B / estaua ant[r]e M / interesse F

38.17 postumeiro / postumeyro A / premeyro B / postumeiro M / exordiis F

O recurso à fonte pode revelar-se determinante, como em

34.21-22 Sancto Agostinho, cujo ele muito desejava / sancto agostinho. cuio elle muyto deseiara A / sancto agostinho. cuios liuros elle mujto deseiara B / Sancto Agostinho cuio[s liuros] elle muyto desejara M / sant Augustin (...) ca los sus libros demandaua ell F. A fonte mostra inequivocamente que A tem um erro. De facto, como poderia B acrescentar um segmento de texto que com ela coincidisse?

Por vezes, ambos os critérios (testemunho-base e testemunho indirecto) concorrem para fundamentar a mesma variante mas mesmo assim Freire Nunes rejeita-a:

13.15 afagarom / afogarom A / afaagarom B / afogarom M / praefocaverunt F. A escolha de Freire Nunes resulta incoerente, uma vez que se perde o sentido adversativo (mais) da coordenação seguinte que, com esta leitura, deveria ser copulativo.

19.19 e em enveja / e emveia A / e em ẽueia B / e emveia / et aemulatione F

Na ausência de fonte identificada, a selecção de variantes é mais subjectiva e conta com critérios de significação e interpretação do texto. Também aqui as opções da nova edição nem sempre se revelam as melhores. Por exempo em 57.8 coraçom / coraçom A / oraçõ B / oraçom M. Paleograficamente, o erro seria facilmente explicável em ambos os sentidos. No entanto, trata-se de uma enumeração de três elementos: coração, obra, oração; ou seja vontade, acção e auxílio divino, que exprimem um programa doutrinal. Se a piedade fosse referida ao coração entraria, a par da humildade e da santidade, no primeiro elemento da enumeração e não daria origem a um terceiro. Mais: o exemplo que se segue imediatamente, articulado por Assy como fez é sobre a importância da oração na compreensão das questões escuras da Sagrada Escritura. Se se ler coraçõ e não oraçõ, o nexo ilustrativo do exemplo perde-se. Mais abaixo (57.16), A volta a oferecer coraçom em vez de oraçom (B) e desta vez, sem notar a incoerência, Freire Nunes aceita a lição de B.

Completamente objectiva é a leitura errada dos mss. onde M leu correctamente:

8.1 o ouvirá / ouujra A /ouuyra B / ouuira M

12.9 ante / antre A / antre B / antre M.

16.1 que esto é demo / que este he demo A / que este he demo B / que este he demo M

22.7 é a arvor / he aaruor A / he aruor B / he aarvor M. Freire Nunes lê a duplicação que marca a abertura da vogal como anteposição de artigo definido ao nome, o que implica complicar uma leitura simples. A haver variante, porém, falta o seu registo em aparato.

23.3 assi como era / asy como que era A / assy como que era B / assy como que era M

27.26 per / e per A / e per B / e per M

29.18 ham sabedoria / ham a sabedoria A / ham a sabedoria B / ham a sabedoria M

30.21 oficio / o officio A / o oficio B / o officio M

34.21-22 desejava / deseiara AB / desejara M

54.22 como riqueza / como a rriqueza A / como a Riqueza B / como a rriqueza M

Os erros de leitura são, por vezes, acompanhados de registos errados no aparato:

19.26 dala / dally A / daly B / dally M. O aparato regista dala como lição de A.

30.10 scilicet, segundo / segũdo A / segundo B / segũdo M. O aparato regista scilicet como falta em B.

53.26 é o homem / he homẽ A / he homẽ B/ he homẽ M. A descrição da situação paleográfica no aparato é inexacta.

54.20 compre / conprẽ A / cõprẽ B / conprẽ M. O aparato regista conprẽ como variante de B e cõmprẽ como leitura de M.

O aparato é ainda lugar de informação errada sobre as lições manuscritas em muitos outros casos:

9.17 deu / dou A / dou B / dou M. O aparato declara optar por B e regista dou como variante rejeitada de A. Na verdade trata-se de um erro conjuntivo que M não corrigiu.

15.18 celestriaes registada em aparato como lição de A, o qual apresenta em adição posterior sobrelinhada celestiaes.

18.4 ha / ha A / ha B / he M. O aparato regista he como variante de B. Note-se que a emenda de M é discutível, uma vez que a lição concordante dos testemunhos é aceitável.

24.16 quem / quẽ A / quẽ B / quẽ M. O aparato regista que como variante de A.

Do aparato está por vezes ausente a informação sobre variantes dos manuscritos que permitiria ajuizar sobre a adequação da opção editorial:

18.17 todalos / todolos A / todalos B / todolos M. Nenhum dos dois editores regista as variantes em aparato. Acresce que M escolhe a lição correcta, ao contrário de Freire Nunes.

Há vários outros exemplos de opções editoriais piores do que as de M, quer por aceitação de lições conjuntivas erróneas dos testemunhos quer por opção pela variante errónea:

5.14 fonte e original / fonte e original A / fonte original B / fonte original M. A manter a enumeração, esperar-se-ia um substantivo e não um adjectivo.

34.13-14 consolarom no o bispo / consolarõ no o bispo A / consolarõ no o bispo B/ consolarõ o bispo M. Os testemunhos apresentam um erro conjuntivo, reconhecido por M mas que Freire Nunes aceita como boa lição. A interposição de consoante nasal para desfazer o hiato (consolarõ no bispo) seria aceitável mas não a duplicação do artigo, que resulta, provavelmente, da hesitação do copista do arquétipo entre as duas formas, com e sem consoante nasal.

54.4-5 de muitas guisas desvairadas cousas / de muytas guisas desvairadas cousas A / de muytas guisas de desvairadas cousas B / de muytas guisas [de] desuayradas cousas M. A opção por A produz agramaticalidade e falta o registo da variante de B em aparato.

A aceitação de lições erróneas dos manuscritos conduz à fixação de evidentes erros paleográficos, como Sorlivio (30.12) por Forlivio, resultante da comum confusão entre f e s longo, ou de formas inaceitáveis, como regavo-os e alimpavo-os (22.28). A consideração destas hipotéticas variantes exigiria, pelo menos, uma nota linguística que as explicasse.

Também não se compreende porque não é restituída a marca de nasalidade em palavras como demoes (15.20), maos (18.3), boo (21.25) ou saos (25.11).

Nas páginas colacionadas, são notórias duas omissões de texto:

9.14 nom queiras trabalhar / nõ queyras mais trabalhar A / nom queiras mais trabalhar B

23.21 entre delectoso e em falta com flores muy fremosas. bem asy (A).

Alguns erros dos mss. que M não corrigiu não encontraram agora melhor solução:

9.6-7 daquelles filosafos... que havia / daquelles filosaphos... que auja A / daquelles filosofos... que auia B / daquelles filosaphos... que auia M

Porém, para além de alguns casos em que ambas as edições poderão ser aceites, a edição de Freire Nunes contribui com algumas opções melhores do que as de M, ou porque M leu mal os mss. ou porque fez emendas desnecessárias ou ainda porque optou por B sem necessidade evidente:

5.19 agua / algua A / agoa B / algua M.

16.26 de pressura / de pressura A / da pressura B / de pressura M

19.14 Ataa fim / ataa fim A / ataa fim B / ataa a fim M

25.7 dicto / dicto A / dicto B / ditto M

25.22 Em este / Em este A / Em este B / E em este M

28.9 gualardam / gualardam A / gualardom B / gualardam M

28.22 que geerar / que geerar A / que geerar B / geerar M

30.3 amado / amado A / amado B / nardo M

32.6 Afonso / afom A / afomso B / Afom M

32.11 veer-te / ueer te A / ueer te B / uĩĩr-te M

54.11 per uso da boa / per huso da boa A / per huso da boa B / per huso de boa M

57.19 é / he A / hee B / ha M

Num outro caso, onde M merecia correcção, Freire Nunes não corrige:

57.22 abate o entendimento / abate o entendimẽto A / abota o entendimento B / abate o entendimẽto M. Trata-se aqui de erro paleográfico ou de lectio facilior de A (abota = torna boto) que M, apesar de admitir no glossário, não assume na fixação do texto.

Quanto à fixação gráfica do texto, além do que já foi referido, encontram-se incoerências, de que anotarei apenas a diferença de critério na união e separação de palavras (24.18: com migo; 24.19: comigo; 24.21: com nosco) e no desenvolvimento de abreviaturas: por exemplo scptura e spũ tanto se desenvolvem com e protético (27.9, 24; 28.5: Escriptura; 30.16: espiritu) como sem ele (27.20, 21, 25: Scriptura; 30.23: Spiritu). O silêncio das normas de transcrição a este respeito poderá estar na origem das oscilações.

Devido certamente a uma deficiente revisão de texto, o uso do itálico nem sempre responde ao que foi previamente definido («letras, palavras e texto acrescentados a partir dos testemunhos não usados como texto base (ms. A)», p. lxxxiv). É usado para marcar actualização gráfica da nasalidade (24.17 som / son A / sõõ B) e para restituições conjecturais, feitas a partir de M (26.9). Em contrapartida, há situações que respondem à norma estabelecida e que não são grafados em itálico: 27.19 dos seus / do seus A / dos seus B.

No aparato são registadas normalizações gráficas que tinham sido anunciadas nas normas, como é o caso da redução de vogais geminadas não etimológicas (p. lxxxiv), da restituição de <ss> com valor de sibilante surda intervocálica (p. lxxxv) e da actualização do uso do h (p. lxxxv), anúncios que não evitaram os registos:

4, n. 25 vão ] AB vaão

5, n.8 são ] AB sãao. Mas imediatamente a seguir (e o são) a mesma redução já não é objecto de registo.

5, n.2 assi ] A asy B assy .

6, n. 23 rosas ] A rossas

5, n.7 o ] A ho.

A respeito do tipo de variantes que o aparato registará as normas fazem novo silêncio, pelo que a assistematicidade com que são anotadas variantes linguísticas e gráficas fica sem justificação evidente e a sua não separação das substantivas perturba a legibilidade do aparato. Igualmente assistemático é o registo das leituras divergentes de M, o que não permite ao leitor a clara percepção da novidade trazida pela edição em relação à anterior. A falta de justificação das opções editoriais de fixação do texto entrega o resultado final do trabalho à arbitrariedade do editor e aos esforços de imaginação do leitor. Não se encontra nem em faixa própria de aparato nem em anotação posterior qualquer explicação para a selecção de variantes, negando-se ao leitor a informação necessária à avaliação do trabalho e à comparação com a primeira edição.

Por fim, ao medievalista habituado a utilizar nos seus trabalhos o glossário de Maler, resta continuar a visitá-lo assiduamente, uma vez que o novo glossário não possui registo de ocorrências.


(1) Orto do Esposo, Edição crítica, introdução, anotações e glossário por Bertil Maler, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1956 (I. Texto crítico, II. Comentário); Stockholm, Almquist e Wiksell, 1964 (III. Glossário).

(2) V. Cristina Sobral, «Para Uma Nova Edição Crítica do Orto do Esposo: Notas Filológicas».


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