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Armando Silva Carvalho — O amante japonês

Por Fernando J. B. Martinho, publicado em 19.9.2008 na secção Recensões Críticas

Armando Silva Carvalho — O amante japonês. Lisboa: Assírio & Alvim, 2008.

A ironia tem sido, desde o primeiro livro de poemas de Armando Silva Carvalho, Lírica Consumível (1965), um elemento fundamental na definição da sua poética. E é isso que, mais uma vez, se verifica em O Amante Japonês. De acordo com aqueles que vêem na ironia um fenómeno de dialogismo interno da palavra, o que aqui temos é um diálogo entre o enunciado presente e um enunciado ausente que se evoca ( cf. Bice Mortara Garavelli, Manual de Retórica, 1991, p. 191 ). O poeta joga, assim, com expectativas, incautas, que remetem para o plano de um equívoco romanesco-sentimental, para, logo a partir da sugestão contida na epígrafe, apontar para uma leitura do título que nele reconheça a alusão a um dos muitos «artefactos» úteis (O Amante Japonês, p. 42) em que, hoje em dia, nos prolongamos, ou deixamos que o nosso corpo se prolongue: o automóvel, na circunstância um automóvel japonês. A epígrafe, retirada de uma canção do italiano Vinicio Capossela ( «Um lugar de grande clandestinidade e / longos silêncios por detrás do pára-brisas», p. 7), desempenha, pois, no lugar estratégico que é o seu, um papel decisivo na decifração do significado do título, ao mesmo tempo que insinua uma das linhas de força temáticas mais em evidência no livro: a da relação do corpo com um corpo cúmplice a que se acolhe, na busca de um espaço de recolhimento e refúgio que o «pára-brisas» isola do caos e da agressão do mundo.

Como a um ser amado, o eu poético faz do carro um interlocutor das suas falas, um confidente dos seus fantasmas e medos (p. 11), mas logo se dá conta que o seu «amor não é feito de sangue» (p. 9). Falta-lhe o cuidado que a inclusão da alma implicaria:

Este amor não é feito de sangue, a minha alma não anda nessa rua deserta,

Nem vai, pé ante pé, contemplar o teu rosto,

Deitar-se em seguida sobre o teu corpo gelado

E limpar-te os olhos do frio

De uma madrugada

Impudica.

( p. 9.)

Essas falas e confidências pressupõem, naturalmente, a personificação do seu interlocutor mudo, e, com frequência, mesmo o recurso à apóstrofe:

     Oiço-te quebrar a rotina com a tua tenaz mecânica,

Ó pequeno ser velho e robusto

Não forces mais o ardor dos teus platinados.

(p.16.)

De resto, a prosa dos versos de Armando Silva Carvalho, toda feita de uma ostensiva recusa das facilidades do «canto lírico» (p. 108), não prescinde, apesar disso, no sábio aproveitamento das vantagens que a ironia oferece para evitar as dificuldades das expressões directas (cf. Garavelli, op. cit., p. 190), de um amplo recurso a muitas outras figuras, como que a lembrar que o literário, mesmo quando se questiona nos seus efeitos de «perceptível beleza» (O Amante Japonês, p. 78), vive muito do uso jubilosamente inovador que delas faz. A auto-consciência do poeta relativamente à irrecusável importância das figuras no texto literário leva-o, aliás, a referir-se expressamente a algumas delas («Alguém predicou a elipse, o paradoxo, / A contradição», p. 52) e a reconhecer na «vida», com a sua desmesura, as «Metáforas mortais» (p. 82) em que ela se desdobra. História de uma relação, o livro não deixa obviamente de ser, como resultado final, também o registo do surgimento de textos , do mais ou menos laborioso aceder dos poemas à existência ( «Hoje quem nasce taciturno é o texto. / Quem se esforça por ser é o poema», p. 69), do alinhar ou do selar dos «versos» na página (cf. p. 79), do seu respirar arfante «em cada estrofe» (p. 18). Por outro lado, a larga bateria de figuras de que lança mão a poesia de Armando Silva Carvalho, não obstante se apresentar como sendo do «tamanho da prosa» (p. 22), tanto pode, por exemplo, pôr o adjectivo ao serviço da contradição do oxímoro ( «Quando contigo à chuva, eu vou recolhendo / Gota a gota, as misérias felizes / Do meu dia corrido», p. 20) como do que há de expressivamente inesperado na hipálage («As músicas obesas», p. 26 ), ou fazer do verbo o núcleo da invenção metafórica ( «A vida é mais vertical nas cordas duras / Que molestam o vidro», p. 19), ou ainda aproximar substantivos aparentemente distantes através da paranomásia ( «Histórias de concubinas domésticas, de gueixas, / Queixas de domingo», p. 74).

Há uma narrativa que, aqui, se constrói, e nesse sentido o título do livro não é inteiramente deceptivo. Trata-se, inevitavelmente, de uma narrativa fragmentária; ainda assim é possível reconstituir uma história feita de abandonos (cf. p. 9), «ciúmes» (p. 10), tristezas cabisbaixas (p. 12), cansadas fidelidades (p. 14), «misérias felizes» (p. 20), irrevogável diferença de destinos (p. 24), espaço concedido à declinação dos versos, ao paciente exercício da «escrita» (p. 33-4), eventual identidade de ritmos (p. 36), memórias (p. 39), roubos, perdas (p. 46-7), experiência da «vertigem» dos «sentidos» (p. 49-50) ou, no outro extremo, da «meditação» pacificadora (p. 52), ou ainda da fruição da arte «entre os detritos» de um quotidiano degradante (p. 55-6). Temas que, com insistência, se retomam ao longo do livro, nexos ou fios narrativos que se estabelecem, de modo mais evidente, entre alguns textos, justificam igualmente que se fale da construção de uma narrativa em O Amante Japonês.

Indissociável dessa narrativa é, do lado do sujeito na sua relação afectiva «com o carro / De origem japonesa» (p. 74), a memória literária, que traz, implícita ou explicitamente, para a dúctil largueza do texto o «sentimento / Do mundo» (p. 71) dos mais diversos autores, de S. João a Sá de Miranda, de Blake a Novalis, de Cesário a Pessanha, de Pessoa a Drummond de Andrade.


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