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Vasco Graça Moura — O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp

Por Carlos Câmara Leme, publicado em 7.10.2008 na secção Recensões Críticas

Vasco Graça Moura — O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp. Lisboa: Alêtheia Editores, 2008.

Narrativa curta e sem uma estrutura complicada, bem pelo contrário, a acção de O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp é balizada pela fuga da corte de D. João VI para o Brasil e a primeira invasão das tropas napoleónicas, comandadas por Junot, em 1808. Apesar de ser uma novela histórica, não cometendo qualquer erro grosseiro no plano dos acontecimentos históricos, Vasco Graça Moura não está minimamente interessado em contar o que se passa nesse plano. Aqui e ali vai sinalizando alguns acontecimentos mas apenas para enquadrar as personagens. O eixo central da novela são os amores e desamores de Jacinto Negrão Bezerra de Albuquerque, flautista, secretário da delegação portuguesa em Paris, onde viveu durante meia dúzia de anos. «Alto, desempenado, de olhos castanho-esverdeados», tinha uma particularidade: era «assaz benquisto das damas» (p. 12) e durante os dois a três meses em que, por hábito, estava em Lisboa, dividia o seu tempo «a escutar os rumores contraditórios sobre a política europeia que alvoraçavam regularmente a Secretaria de Estado, a corresponder-se com Filinto e a tocar flauta».

Mas o seu maior gozo era catrapiscar «umas damas casadas com negociantes ricos e ansiosas por emoções e titilações ‘parisienses’» (p. 15). A política passa-lhe cada vez mais ao lado: Junot e os franceses podiam, apesar de alguns reveses, ter chegado ao poder e controlar a política do reino, apesar de os ingleses à coca na costa marítima portuguesa; a verdade é que Jacinto Negrão Bezerra de Albuquerque não sente nenhuma vontade de tomar partido por qualquer das partes: «Queria lá saber disso fosse para o que fosse...», diz de si para si (p. 41).

Muito embora o narrador nunca assim o caracterize explicitamente, Jacinto tem todas as características de um libertino, e a leitura de O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp logo nos remete para o romance epistolar de Choderlos de Laclos, As Ligações Perigosas. A primeira dama que lhe surge no caminho é Juliana de Oyensausen e Almeida, filha da Marquesa de Alorna, que, revoltada com o facto de Junot deixar de a seduzir, deu rapidamente a Jacinto «mostras inequívocas da sua disponibilidade imediata para umas carnalidades de ocasião» (p. 16). Mas, qual libertino inteligente, isto é, senhor das suas congeminações lascivas e investido na sua condição de perverso, «ladrão de mulheres, sedutor das virgens, vergonha das famílias e insulto aos maridos e aos pais» (Michel Foucault), prefere sair de cena e encantar-se por Marina de Niza, mulher de um militar que embarcara com a família real para o Brasil. Jacinto não precisa de grandes atrevimentos nas suas conquistas libido-amorosas, depois de ter percebido que Juliana tinha conseguido, num derradeiro lance, encantar Junot, «que ainda se prestou a sôfregas sucções» (p. 17). Mariana, senhora de várias facadas no seu matrimónio, vê em Jacinto — depois de um caso amoroso com outro músico, Alessandro Dogana — alguém «bem mais apessoado» com «um estatuto incomparavelmente superior» e sobretudo «mais vigorosamente inventivo» do que Dogana em assuntos de alcova.

Os acontecimentos entram em roda livre e é com «naturalidade» que aparece mais uma mulher na vida de Jacinto — Leonor Falcão e Menezes, filha dos condes do Sardoal. O enredo complica-se. Aos trinta anos, Jacinto sentia que tinha que dar um rumo à sua existência e pensava de si para si que Leonor «era exactamente o partido que lhe convinha, pela beleza radiosa, pelo porte recatado, pelo quilate aristocrático, pela riqueza da família, por toda uma série de atributos que se conjugavam à maravilha com todos os seus desejos e aspirações, esbarrando apenas com a presença de Mariana» (p. 24). Empenha-se assim, à luz da sua condição de libertino passeando por Lisboa, numa viva roda viva, com poder sobre o outro mas, sobretudo, sobre as mulheres.

Nunca a vontade de poder (que chegará até aos nossos dias mas através de outros mecanismos) esteve tão associada à perversão libertina do prazer. «Mais do que as velhas interdições — salienta Michel Foucault em A Vontade de Saber —, esta forma de poder exige, para se exercer, presenças constantes, atentas, e também curiosas; supõe proximidades; procede através de exames e de observações insistentes; requer uma troca de discursos, através da perguntas que vão extorquindo confissões e das confidências que ultrapassam as interrogações.» O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp é, em pleno século XXI, um bom tratado dessa relação poder-prazer e Vasco Graça Moura lança, a este nível, um dado certeiro.

Enquanto Leonor não sai da cabeça de Jacinto, as coisas complicam-se quando fica a saber que Mariana está grávida. A política continua a aborrecê-lo. No momento, apenas pensava que, quando a poeira assentasse, talvez pudesse ter lugar numa embaixada ou num ministério. O que ia no fundo da alma, do coração e da razão de Jacinto «era a liberdade menos filosoficamente sustentada, ao mesmo tempo comezinha e romântica», construindo a vida à luz «iluminada pelos olhos de Leonor Falcão e Menezes» (p. 43).

A novela lê-se de um fôlego, com capítulos bastante curtos, com lances e dardos certeiros à medida que evolui, com uma escrita límpida e, por vezes mesmo, torrencial. Mas O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp — escrito por alguém que conhece e domina bastante bem a atmosfera e as técnicas narrativas da época que retrata — não é nenhum pastiche de uma novela romântica. Vasco Graça Moura escreve em pleno século XXI com um olhar irónico, paródico e trágico. Como notam William K,. Wimsatt, Jr. e Cleanth Brooks, «a tragédia e a comédia têm andado sempre ligadas na simples oposição — a máscara que ri substituída pela que chora».

Uma obra-prima? Longe disso. Vasco Graça Moura já fez, quer enquanto romancista quer como novelista, bem melhor. Um divertimento inteligente? Talvez seja a melhor definição para ler (e caracterizarmos) O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp.


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