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Padre António Vieira — Sermões

Por João Dionísio, publicado em 7.10.2008 na secção Recensões Críticas

Padre António Vieira — Sermões, I. Lisboa: Centro de Estudos de Filosofia; Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.

Nas comemorações do quarto centenário do nascimento do Padre António Vieira, o lançamento do primeiro volume da edição crítica dos Sermões ocupa lugar de compreensível relevo. A direcção do projecto editorial cabe a Arnaldo do Espírito Santo, Aníbal Pinto de Castro é o consultor científico da edição, e este primeiro tomo apresenta o texto estabelecido e o aparato crítico elaborado por Arnaldo do Espírito Santo, Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel e Ana Paula Banza. As notas são devidas a quinze especialistas de diferentes áreas, na mais evidente demonstração de que uma edição crítica, pela diversidade de saberes que convoca, é um trabalho de equipa.

Embora a editio princeps, iniciada em 1679, seja maioritariamente um programa configurado pelo próprio autor, os últimos volumes não foram acompanhados pelo Padre António Vieira e, sobretudo, há variantes nas impressões de cada volume que exigem atenção especializada, apuramento dos problemas específicos e busca das soluções correspondentes. No caso do tomo agora publicado, foram identificadas e colacionadas três impressões – designadas A, B e C – com graus diferentes de aplicação do disposto numa Errata colocada antes do texto dos Sermões, com vestimentas gráficas diversas e cedências distintas a desvios banalizadores. Neste aspecto, a preferência dada pelos presentes editores à impressão A como texto-base visou recuperar certos aspectos de uma ortografia menos modernizada e o respeito por um sistema de pontuação representativo da transmissão oral a que se destinava a versão primeira dos sermões.

Como lembra Manuel Cândido Pimentel na nota introdutória, esta é primeira edição dos Sermões que merece a qualificação de crítica. Tal condição justificará em parte que nos sumários «Critérios da Edição» o ano de 2008 seja tratado como um ano «zero»: desengane-se o leitor que pensa encontrar a comparação (no método, nos resultados) do presente volume com alguma edição anterior dos Sermões (apenas são indicados na p. XVI uns poucos casos esparsos exemplificativos das melhorias contidas no novo estabelecimento crítico, não se indicando, por pudor, os proponentes das fixações preteridas); não espere o leitor encontrar alusões a outros projectos editoriais consagrados a textos parenéticos de outros autores e de outras literaturas nacionais que possam ter servido de ponto de referência ao trabalho agora lançado. Todos os «Critérios da Edição» foram pensados como o tratamento de um caso especial – sem passado digno de registo porque até agora no campo bibliográfico vieirino não tinha havido projectos de estabelecimento crítico desta envergadura, sem alusões a iniciativas editoriais congéneres ou afins porque Vieira é Vieira.

Dizer que os resultados são convincentes é dizer pouco. A equipa multidisciplinar que elaborou as notas e os responsáveis pela fixação crítica produziram um livro singular em que se misturam harmoniosamente clareza e erudição, proporcionando ao leitor dos sermões um prazer intelectual raro e acessível. Dado este pano de fundo, os apontamentos seguintes são motivados pelas pouquíssimas facetas deste trabalho que me suscitam perguntas.

Nos «Critérios da Edição» explica-se a decisão de registar em aparato certas variantes: «porque consideramos que tal oscilação («ũa»/«uma») pode ser significativa de um estado crucial da evolução da língua portuguesa, foram assinaladas no aparato crítico as variantes ocorrentes» (p. XV). O registo destas ocorrências (na companhia de «alguma»/«algũa » e «nenhuma»/«nenhũa») ocupa a fatia maior da segunda faixa do aparato crítico (e, em matéria de disposição na página, poderia talvez pensar-se na hipótese de colocar em cada linha mais notas sumárias deste tipo em vez de uma única nota). Admitiria como mais apropriado que esta informação não entrasse no aparato e que fosse a introdução a acolher o tratamento da questão ou, pelo menos, a colocação do problema. Uma vez que a decisão editorial foi a de adoptar a forma «hũa» e derivados, qual o interesse de registar sistematicamente os lugares-variante? Imagina-se algum leitor a fazer o levantamento exaustivo destas variantes e, ponto fundamental, de procurar e a elas juntar os lugares que eventualmente não variam (isto é, casos em que apareça uniformemente «hũa» ou «uma» nas três impressões) para daí procurar extrair hipóteses interpretativas e talvez conclusões? Os únicos leitores que imagino a realizar este trabalho são os próprios editores do texto. Dito de outro modo, o aparato diz por natureza respeito a fenómenos isolados ou com um grau de ocorrência baixo; fazer dele a casa de fenómenos que se repetem parece ser torná-lo apto a uma função que não lhe está habitualmente destinada.

Marginalmente, talvez outras notas deste aparato pudessem ser dispensadas. Um exemplo seria a nota W da p. 78, onde se assinala que as três impressões concordam em dar «Loco», adoptando-se no texto crítico a forma «Louco». O mesmo se diga acerca de «Creiamos», quando todas as impressões fornecem «creamos» (p. 161); ou Micheas nas três impressões, substituído na fixação crítica por Miqueias (p. 339-40); ou ainda «conflito» por «conflicto» (p. 409). Creio que este tipo de intervenções estaria melhor acomodado nas normas de transcrição do que no aparato.

De modo mais contingente, talvez valesse a pena verificar até que ponto o idiolecto de Vieira admite variações como a que aparentemente ocorre nas páginas 104 e 112. No primeiro caso, a forma pronominal lhe parece aplicar-se ao plural, como decorre do passo «que se lhe [aos Gentios] representem»; na p. 112, os editores tomaram-na como respeitante ao singular, pois, apesar de transmitida por C, recusaram-na e adoptaram «lhes», conforme consta de A e B: «Mas se eu lhes [a Lutero e Calvino] dissera que eram duas serpentes». Outro caso é o da preferência por «néscias» (AB) contra «necias» (C) na p. 188, quando esta última parece estar mais de acordo com a visão que os editores transmitem da língua de Vieira (cf. «Dicípulos», p.189, ou, na p. 183, «acrecenta»). Parece por isso ter preponderado nesta ocasião o valor abstracto da impressão A como testemunho-base contra a análise casuística. Note-se, neste ponto, que na p. 548 manter-se-á «nécio» (A) contra «nescio» (BC)

Menos do que reticências, as observações expostas nos últimos parágrafos são perguntas e têm um grau de relevância irrisório perante o significado da edição em análise para os estudos de Vieira. Entre as muitas vantagens que o leitor pode dela colher encontramos uma disposição extraordinariamente amigável: corpo do texto sob títulos correntes ladeado pelas notas marginais constantes das impressões seiscentistas e sobre um aparato de duas faixas – a faixa superior acolhendo a identificação das fontes, a tradução dos trechos citados por Vieira em latim, a explicação (histórica, filosófica, retórica, teológica) de alguns passos, o fornecimento dos equivalentes modernos de certas palavras; a faixa inferior contendo as variantes transmitidas pelas impressões A, B e C.

Pela variedade e riqueza das observações que difunde, a faixa superior do aparato é um preciosíssimo instrumento de trabalho para os leitores neófitos do Padre António Vieira e também para os mais experientes. Acerca da amplitude muito inclusiva dos destinatários desta edição, justifica-se contrariar a possível impressão de exagero provocada, por exemplo, pelo escrúpulo de dizer que «nace» equivale a «nasce» (p. 132, nota 3). Uma vez que os editores optaram pela impressão com características mais arcaízantes, glosas deste género serão úteis para o leitor menos familiarizado, o qual, com elas e na companhia de outros esclarecimentos em rodapé e do Léxicon final, raramente se sentirá desamparado perante a escrita exigente e interpelante de Vieira.

Quanto ao estabelecimento crítico propriamente dito, é de destacar a acribia na selecção da variante mais provável de acordo com a análise sistemática e particular das três impressões, bem como a opção consistente por formas menos modernas, reveladora da pátina do tempo e do idiolecto vieirino. Merece relevo, para falar de um par de casos pontuais, a decisão cativante e sustentada de manter a forma «Ignácio» (e não «Inácio») por causa do jogo etimológico que convoca os sentidos «Fogoso, Abrasado e Ardente» (p. 217); ou a escolha da variante que traduz a veia irónica na exclamação «Oh que advertência tão digna!» (por «indigna») (p. 60). De sublinhar também o cuidado posto em manter um sistema de pontuação a tempos mais devedor da prosódia do que da sintaxe.

Outro aspecto particularmente impressionante no trabalho em pauta é o da identificação das fontes, incluindo a discriminação ocasional, no caso do texto bíblico, da versão a que Vieira recorreu (p. 72, nota 24; ou p. 82, nota 63). A equipa que preparou esta edição também oferece a detecção subtil de evocações associadas a citações de facto, como, na p. 548, a reminiscência proveniente de uma das Cartas a Lucílio de Séneca que foi entrelaçada com um trecho do Eclesiastes. De resto, tendo em vista o destinatário alargado que mencionei antes, as citações em latim são traduzidas e, quando já delas existe uma tradução em português, é feita uma selecção criteriosa do texto a usar (cf. p.102, Tiestes de Séneca na tradução de Segurado e Campos).

Estas razões, entre outras, fazem com que ler Vieira por este livro seja um regalo, provando que uma edição crítica não é fatalmente um anacrónico objecto museológico, mas uma forma de encontro possível com a grande literatura.


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