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Mário de Carvalho — A sala magenta

Por Teresa Sousa de Almeida, publicado em 7.10.2008 na secção Recensões Críticas

Mário de Carvalho — A sala magenta, Lisboa: Editorial Caminho, 2008.

Com este romance, Mário de Carvalho prossegue o trabalho iniciado com Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina, publicado em 2003 que, por sua vez, marcava uma viragem na sua obra. Tratava-se então de fazer a «micro-história» de duas personagens masculinas (e das respectivas mulheres), retiradas no Alentejo, espaço onde projectam as suas idiossincrasias. Desiludidos com a cidade e reformados do exército, os dois coronéis, agora inúteis, investem o seu saber táctico e estratégico na construção de uma piscina, pequeno atentado ambiental num espaço multissecular e (ainda) ecologicamente equilibrado. Ao contrário de Lúcio Valério, narrador e personagem de Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, o coronel Bernardes e o coronel Lencastre não têm muito para contar, pois nunca foram protagonistas da História, apenas de pequenas historietas de autoria incerta. Pretendem, sobretudo, esquecer mágoas que se reduzem a um desentendimento com os condóminos ou às aventuras de um filho extraviado. Dir-se-ia que Mário de Carvalho optou por focalizar o seu olhar num microcosmos, reflexo das transformações trazidas por aquilo a que se costuma chamar a globalização. A simpatia com que um narrador benévolo, mas lúcido e contundente, trata as suas personagens, deixa transparecer a crítica a um país onde nada se passa, para além de pequenos episódios grotescos e quase vulgares, que não impedem que cada personagem encontre um equilíbrio precário, evitando a tragédia no último momento.

Pelo contrário, A Sala Magenta é um romance desencantado e melancólico que faz o retrato de uma geração de artistas falhados, baseando-se nas relações difíceis e quase impossíveis de cartografar entre homens e mulheres. A chave do livro reside no seu título: a sala magenta é a antecâmara da felicidade, o espaço em que Maria Alfreda, a amante inacessível, recebe o anti-herói do romance, Gustavo Dias Miguel, nunca o deixando penetrar no seu quarto, o que significa, no contexto da obra, a recusa absoluta de amor ou de partilha. Noite após noite, o amante tenta forçar essa relação, sempre adiada, sem perspectivas de futuro e, o que é pior, em contínuo diferimento. Gustavo sofre; Maria Alfreda parece não se dar conta da sua dor. Por outro lado, o protagonista sente-se incapaz de assumir a sua vida profissional, ficando-se também por uma espécie de antecâmara da carreira de cineasta que deveria ter prosseguido. A crise surge quando é atacado e tem de se refugiar, de perna partida, na Lagoa Moura, em casa da irmã, Marta, onde tem tempo para reequacionar a sua vida, dando ao narrador oportunidade de contar a sua história em sucessivas analepses.

Incapaz de avaliar o que se passou com Maria Alfreda e limitando-se, portanto, a enunciar o que nunca chegou a acontecer, Gustavo volta agora a sua atenção para a vida da irmã. Curiosamente, o romance acaba por se centrar também na relação «real» com Marta, cujas actividades são analisadas detalhadamente. Conseguindo organizar de uma forma eficiente o seu quotidiano, esta personagem feminina mantém, igualmente, uma relação fantasmática com um filho transviado que constantemente desculpa. Gera-se assim um estranho quiasmo: Gustavo e Marta vivem na mesma casa, partilham o dia a dia, mas a sua relação é assombrada por duas personagens ausentes, se bem que de duas formas diversas: Maria Alfreda, cuja sombra persegue o anti-herói, e Cláudio, mitificado pela cegueira de uma mãe que se engana a si própria, sabendo que se está a enganar.

Analisando a relação irmão/irmã de um outro ponto de vista, poder-se-ia afirmar que, na visão de Gustavo, Marta, dois anos mais velha, é uma espécie de mãe que esconde o seu sofrimento para cuidar de um irmão doente, trazendo consigo aquele que é o segredo de algumas mulheres:

Pobre mana imerecida, que tantas vezes lhe suscitava a inconfessável raiva de não estar à altura, e ser incapaz de retribuir a atenção, o feitio e a solicitude. Desde sempre a vira sobrecarregada de trabalho, a desdobrar-se nos cuidados com os outros, com o pai, com a mãe, com o marido, com o filho, agora com o irmão, num sobrepeso de tarefas, ânsias, desvelos e fadigas. Pela vida, habituara-se a ver mulheres cansadas, estava farto de mulheres cansadas, até por não compreender a assustadora capacidade de se concentrarem em várias ocupações e de violentarem o corpo até à exaustão. (p. 33.)

Estabelece-se assim uma relação marcada por uma espécie de silêncio, entrecortado por múltiplas trocas de palavras nem sempre simpáticas. Admirando a irmã, sem que, no entanto, a consiga compreender, Gustavo parece não ser capaz de lhe transmitir o que realmente sente, atormentado pela humilhação e por uma espécie de barreira intransponível. Se quiséssemos formular a regra que pauta as relações entre os dois sexos, poderíamos dizer que, neste romance, o mundo feminino é inacessível, sobretudo porque o narrador se coloca sempre do lado de Gustavo ou seja de um olhar masculino que apenas sinaliza a sua incompreensão. Indo um pouco mais longe e parafraseando Deleuze, a propósito de Proust, poder-se-ia dizer também que os signos do amor mentem e que apenas se dirigem ao protagonista para esconder o que exprimem ou seja para referir a origem de mundos desconhecidos. Neste sentido, quer se trate de uma relação fraternal ou de uma paixão infeliz, a comunicação entre os dois sexos parece impossível de estabelecer, o que é dito através do sofrimento silencioso e silenciado de Gustavo e de Marta.

Na longa carreira de Mário de Carvalho, A Sala Magenta é também uma obra singular pela forma como lida com os dois registos que marcam o seu percurso: o cómico e o trágico. Contrariamente a todos os outros textos, este romance situa-se numa espécie de limiar: a tragédia é evitada no último momento, através um final quase grotesco; a comédia não chega a existir, dada a tristeza que marca a vida de todas as personagens.

No seu despojamento e no respeito pelas regras da verosimilhança, o romance é quase clássico, como notou Osvaldo Manuel Silvestre a propósito de Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde(1), como se mais uma vez Mário de Carvalho tivesse querido apagar o lado mais fantástico da sua obra. No entanto, esta forma de realismo é também a sua desconstrução, porque, ao contar o que acontece, o narrador prescinde da sua ominisciência para falar da sua própria cegueira. Neste sentido, parecendo ser um romance centrado numa geração falhada, que agora se refugia na província, A Sala Magenta é também uma reflexão sobre os limites da linguagem, as fronteiras da literatura ou aquilo a que o próprio Mário de Carvalho chamou «a indecifrabilidade dos sinais».


(1) «Poderíamos pois começar por interrogar o sentido do gesto que conduz um escritor de uma imaginação tão fervilhante e gosto tão acentuado pelo ludismo da escrita e da construção ficcional a escrever um romance tão admiravelmente enxuto e tão surpreendentemente contido nos limites do decoro reivindicado pela poética clássica.» (Osvaldo Manuel Silvestre, "Mário de Carvalho: Revolução e Contra-revolução ou Um Passo atrás e Dois à frente", Colóquio/Letras, n.º 147/148, Jan. 1998, p. 220).


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