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Rui Estrada — Questions of Literary Theory

Por Humberto Brito, publicado em 7.11.2008 na secção Recensões Críticas

Rui Estrada — Questions of Literary Theory, Munique: Martin Meidenbauer, 2007.

Questions of Literary Theory é uma colecção de artigos apresentados por Rui Estrada ao longo da última década em contextos diferentes, publicados agora em inglês no âmbito da série NEL-Studies (organizada pelo Núcleo de Estudos Literários da Universidade do Porto), com prefácio de Celina Silva. Haver entre eles uma ideia que unifica a colecção apenas denota a coerência intelectual da carreira de Estrada. Esse mérito torna-o, por virtude própria, um autor de referência em Portugal no domínio da teoria literária. Mas essa coerência de autor é tão mais conspícua e admirável quanto, por contraste, não parece existir no livro (nem nos é sugerido que exista) qualquer estratégia de unificação premeditada.

Em «The Blank Page» (2006), primeiro artigo do livro, Rui Estrada expõe as contradições auto-performativas dos usos do topos do inefável em algumas críticas à obra de Eugénio de Andrade. No segundo, «The Resistance of Language to the Intention of the Author» (2001), é discutido o velho tópico da intenção do autor, tematizado neste caso numa análise de duas opiniões incompatíveis de Alves Redol acerca do seu próprio Gaibéus. No terceiro, «One Foot in History» (2004), o autor relativiza as críticas historicistas de Gunvald Whalö ao sistema historicamente desincarnado (e ironicamente datado) de Teoria da Literatura, de Aguiar e Silva. No quarto artigo, versão de um ensaio publicado em 1998, «Quod before quid», Estrada justifica a impraticabilidade da concepção de vanguarda artística defendida por Jean François Lyotard. No quinto, temos uma breve apologia (algo anómala no conjunto) de um outro filósofo francês, sob o título «On Derrida» (2005). No sexto artigo, «The Ghost of Phaenerete» (2005), sobre o livro Impasses, de Fernando Gil e Paulo Tunhas, defende-se que «controvérsias políticas e éticas [...] não podem [...] ter um final feliz epistemológico/filosófico nem, na maioria das vezes, qualquer final feliz de todo» (p. 54). E em «Theory as a Scientific Genre», sétimo e último artigo do livro, o autor critica por fim as consequências teóricas da emergência institucional da teoria da literatura como domínio especializado, cujas raízes estão, do seu ponto de vista, numa concepção estruturalista pretensamente «científica» de teoria literária.

A julgar pela irregularidade de assuntos, não confinada aos limites tradicionais dos estudos literários, mas no espírito daquilo a que em tempos se chamou apenas theory, e também por não haver uma tese central declarada ou qualquer princípio de organização antológico evidente, este livro não se compara nesse sentido aos outros do A., Leitura da Teoria (1996) e O Céu Aberto do Senso Comum (2002). Salvo o espírito partilhado, temos, em vez de uma tese, pequenas discussões e argumentos mais curtos, cuja exposição e análise abrange, apesar disso, um leque considerável de tópicos do debate contemporâneo, com as vantagens da síntese e as desvantagens da simplificação excessiva. Possivelmente, o critério de alinhamento é ditado por uma gradação de complexidade, mais ou menos sensível. Não é isso, contudo, que confere certa unidade ao conjunto. De facto, a única razão para insistirmos neste aspecto talvez não intencional do livro é nisso consistir a sua melhor qualidade: o facto de haver uma ideia dominante, reconhecível e independente das contingências temáticas contextuais que, ao longo dos anos, foram determinando a produção de cada artigo para ocasiões académicas diversas. Ora, uma boa maneira de agarrar essa ideia será começar e acabar pelo último ensaio do livro: «Theory as a Scientific Genre».

Nesse texto, Rui Estrada critica a retórica pro domo do estruturalismo na teoria literária, na origem da emergência desta como «domínio científico» especializado. Do seu ponto de vista, mais do que um campo de estudos reconhecido, a teoria tornou-se um género literário em si mesmo — um género reservado a especialistas, escrito num dialecto técnico particular (o da «literariedade»), uma espécie de estilo inflaccionado, normalmente vantajoso quando se trabalha numa instituição. Parece assim existir, na perspectiva do autor, uma simples diferença de grau, ou pelo menos um pequeno passo, entre usar um estilo inflaccionado e a criação (ainda que colectiva) de um género em si mesmo, cuja popularidade representa, nas humanidades, a sua lamentável queda para a especialização — argumento algo platónico para um pragmatista puro como Estrada. Inesperadamente também, apesar das «razões práticas e prosaicas» dessa queda (e o que é sinal curioso num autor para o qual os aspectos técnicos da literatura são o que menos importa), os aspectos técnicos «deste género literário teorético» são o principal motivo de crítica. Em particular, o de que «o vocabulário técnico inerente ao ‘aparato descritivo’ de Todorov» dependia da ideia segundo a qual se pode descrever factos, antes de os interpretarmos.

«O ‘aparato descritivo’ de Todorov», explica-nos Estrada, «nasce tanto de um acto de interpretação quanto a mais paranóica leitura imaginável das histórias de Boccacio» (p. 72). O alvo é aqui a ideia (pressuposta por Todorov em «The Grammar of Narrative») de que alguma vez nos podemos encontrar numa posição epistemológica privilegiada, para além ou aquém de quaisquer descrições — uma posição que transcenda as contingências de contextos humanos e usos de linguagem. E essa ideia é atacada a partir de ângulos diferentes ao longo deste livro.

No primeiro artigo, é atacada no lugar-comum de que a poesia é aquilo que está para lá das palavras e de toda a interpretação; no segundo, na figura de «consultar o oráculo», marca do intencionalismo, de acordo com Wimsatt e Beardsley; no quarto, o pretexto é a concepção de avant-garde proposta por Lyotard, na medida em que esta depende de se imaginar que «no momento da criação, o que as vanguardas criam é um evento desligado de qualquer enquadramento conceptual ou cognitivo»: é a «ilusão de que podemos criar a partir do nada» (p. 41); e no sexto artigo, essa posição desencarnada vem agora mascarada na imagem de Sócrates, numa leitura original de Teeteto, que precede a de Impasses. Sócrates está aqui por aquilo que, segundo Estrada, Platão «entende por conhecimento: algo que está acima de qualquer disputa contextual e que é válido em si mesmo; uma realidade que não pode ser questionada por qualquer forma de argumentação» (p. 58). E em suma, para o propósito do seu argumento, discussões políticas e éticas não podem ter um final epistemológico feliz visto que não podem ser resolvidas pela «alegação de estarmos na posse de conhecimento irrefutável» (54), quer dizer, de «um conhecimento sem rosto humano» (58).

Sobram o terceiro e quinto artigos, indirectamente reveladores do rosto humano que faltava a esses modos de metafísica, no fundo com a modéstia de nos relembrar de que tudo quanto fazemos é humano e está situado historicamente; e de que tudo quanto podemos dizer a esse respeito não pode aspirar a mais do que uma forma relacional de verdade, ou à mera produção de narrativas relativas a contextos — a correcção das quais, segundo Estrada, só pode ser decidida (se é que pode ser decidida) por persuasão. No quinto artigo, contra um célebre comentário de Habermas, somos assim persuadidos a fazer justiça a Derrida, atendendo ao contexto e intenção especiais do desconstrucionismo (deferência que, talvez por razões retóricas, o autor não concede a Todorov.) E somos também convidados a lê-lo como este lia terceiros, i. e «de certa maneira» (p. 50). «Como assim?», poderíamos bem perguntar — pois para Estrada não existem modos de leitura privilegiados.

Como se salvaguarda no terceiro artigo, nenhum género narrativo (e.g. História) tem privilégios epistemológicos sobre qualquer outro (e.g. crítica literária), visto que «interpretar a história submete-se às mesmas dificuldades hermenêuticas inerentes [à interpretação de] textos literários» (p. 35). E se por defeito, todo o conhecimento tem um rosto humano, depreende-se que também o da ciência consiste, no fundo, do seu ponto de vista, num modo narrativo particular de explicar o que existe, cuja correcção está igualmente vulnerável às contingências da nossa situação. Pelo menos a julgar pelo título do último ensaio, «Theory as Scientific Genre», que troçando (com razões de sobra) da teoria da literatura vista como género científico, se permite em contrapartida sugerir que tomemos a ciência como um «género» literário. Pode ser, no entanto, que esta meia sugestão nasça de um erro comum (e aliás trágico para as humanidades): o de confundir «correcção» com «objectividade». Confundi-las e alegar, com uma certeza inabalável, que o que pensamos sobre Gaibéus, por exemplo, nunca poderá ser realmente correcto é, em última análise, um outro modo de se imaginar que ser «objectivo» é a única forma genuína de correcção. É continuarmos reféns de complexos de vergonha (situados) em relação à ciência e à epistemologia.


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