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Aníbal Pinto de Castro — O Essencial sobre o Padre António Vieira

Por Alcir Pécora, publicado em 7.11.2008 na secção Recensões Críticas

Aníbal Pinto de Castro — O Essencial sobre o Padre António Vieira, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.

A conhecida colecção da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, O essencial sobre..., dedica um volume duplo, 101-102, ao Padre António Vieira (1608-1697). Como é especialmente adequado a uma colecção destinada a dizer nem mais nem menos do que «o essencial» sobre um autor e sua obra, escalou-se para escrever o livro um estudioso com autoridade firmada e juramentada sobre a matéria, cuja visão da obra de Vieira é ao mesmo tempo eruditamente abrangente e informadamente especializada. Falo do catedrático de Coimbra, durante longos anos Director da Biblioteca da Universidade, Aníbal Pinto de Castro. O mesmo homem que está, com justiça, nas mesas de abertura e encerramento dos principais congressos portugueses e internacionais de homenagem aos quatrocentos anos de nascimento do jesuíta, comemorado neste 2008. Aníbal Pinto de Castro é autor também de outro livro que pretendia dizer o essencial sobre Vieira, lançado por ocasião da última grande efeméride do autor, em 1997, nos trezentos anos de sua morte: António Vieira: uma Síntese do Barroco Luso-Brasileiro. Não se tratava de livro pequenino como este, mas ao contrário bem grande, de capa dura, com muitas reproduções e imagens de época, que ornamentavam as informações e análises que trazia – o que, tudo somado, tornava-o um belo table book.

O novo livrinho dedica sete dos oito capítulos a uma rápida e precisa passagem pela biografia de Vieira. O guião é composto pelas duas obras decisivas do historiador João Lúcio de Azevedo (1855-1933): a colecção das Cartas (1925-1928), e sobretudo a História de António Vieira (1918-20). Também em relação às divisões da longa vida de Vieira, Pinto de Castro tende a seguir as clássicas divisões de João Lúcio. Assim, começa pelo relato do que se passa entre o nascimento em Lisboa e a entrada na Companhia de Jesus da Bahia, que, adianto, não acredita ter sido planeada contra a vontade dos pais como suspeita o historiador.

Em seguida, passa ao período de formação jesuíta na Bahia e Olinda. Aí, ainda à maneira de João Lúcio, cujo modelo historiográfico estava informado pelo método do «realismo crítico» germânico, Aníbal Pinto de Castro refere a «mentalidade» a dominar a Companhia, a qual, por sua vez, deveria forjar a forma mentis de seus membros. De qualquer maneira, o fórceps da educação jesuítica ajusta-se ao que é tratado como carácter próprio e espontâneo de Vieira: afectivo, sujeito a achaques e arroubos passionais, susceptível sempre aos voos sobressaltados da imaginação demasiado lépida e atrevida. É um retrato «moral» certamente derivado do tom voluptuoso do germanismo da virada do século XIX, mas é verdade que até agora nenhum outro esboço obteve foros mais verosímeis do que esse, no ramerrame dos estudos vieirianos.

O terceiro capítulo trata do tempo em que Vieira actuou como diplomata e pregador do Rei D. João IV, seu grande protector, que o envia a diversas cortes da Europa a tentar estabelecer alianças e acções capazes de sustentar a autonomia do pequeno Portugal face à beligerância dos grandes de Europa. O capítulo seguinte é dedicado a seu retorno ao Brasil, desta vez como visitador do Maranhão. Fiel ao modelo de João Lúcio, Aníbal Pinto de Castro dá-lhe o título (que tem valor de epíteto) de «O missionário». Embora se aplique com justiça às acções do jesuíta no Maranhão, sempre guarda a mesma impropriedade de todas essas divisões mais ou menos estanques e esquemáticas do modelo de João Lúcio: tende a separar o inseparável, ou a juntar em etapas o que se dá de maneira complexa e muitas vezes concomitante. Em contrapartida, o método tem a vantagem inegável de submeter todas as circunstâncias do período a uma dominante única que esclarece, mesmo simplificando, a matéria complicada de uma acção indiferente a áreas especializadas.

O capítulo quinto é dedicado ao tempo do processo inquisitorial, quando a derrota da facção joanina da corte, ao fim do período da regência de D. Luísa, faz com que a Inquisição finalmente angarie apoio político para iniciar o processo contra Vieira. No centro das acusações estão as suas ideias «judaizantes», que, enfim, significavam o aproveitamento do cabedal judeu na sustentação do reino, e implicava na «mudança dos estilos» da Inquisição, com as chamadas «abertas e publicadas», além da suspensão do confisco dos bens. Tais medidas caíam mal em todas as ordens do reino, afora actuar como amplificador da natural indisposição entre dominicanos e jesuítas.

Em seguida, claro, Roma. São todos capítulos tão correctos como previsíveis, tendo em vista o modelo cronológico-etapista. Pinto de Castro refere os triunfos oratórios que Vieira conquista na corte da Rainha Cristina da Suécia, que abdicara do trono de seu país para ganhar o foro de Rainha na capital do mundo. Destaca ainda as expectativas do jesuíta de obter isenção do tribunal inquisitorial, o que logra completamente graças a um breve papal, e de tornar a Portugal na condição de conselheiro político e privado do rei, o que nunca mais lhe foi concedido.

O capítulo sétimo traz estampado no título o patetismo muito ajustado à visão que João Lúcio popularizou, e que se mantém praticamente incólume até hoje: «À espera da morte». Aníbal Pinto de Castro comenta a frustração de Vieira por D. Pedro II nunca mais tê-lo chamado para palpitar nos negócios reais mais sérios. A desilusão teria, até, feito com que quisesse tornar ao Brasil, e mais precisamente à Bahia da sua infância. Por fim, pincela o período que passa na capital da colónia até o dia da sua morte. De minha parte, conquanto admire os efeitos sempre comoventes da arquitectura patética, tenho minhas ressalvas à imagem de «vencido da vida» construído por João Lúcio à imagem da «geração 70», em Portugal. Contra o que nos acostumamos a pensar, não me parece que ela quadre com exactidão ao Vieira do período posterior a Roma.

Para começar, cabe não esquecer que durante esse longuíssimo período de suposta «espera da morte» – que o retém vivo por mais de 20 anos! –, Vieira não apenas escreveu a versão definitiva e imortal de seus sermões, até então saídos quase sempre em publicações piratas, que considerava adulteradas e distantes de sua voz, como continuou se correspondendo com os grandes de Portugal e do mundo, palpitando sobre tudo. E escrevia a obra latina que ficou conhecida como Clavis Prophetarum, à qual ainda não soubemos dar uma edição completa. E combatia com garra a entrada dos paulistas na Bahia, bem como o controle italiano da companhia no Brasil, para não falar que se meteu em várias brigas políticas locais, a ponto de ser acusado de mentor da conspiração que levou ao assassinato do governador. «Espera da morte»? Quem dera fosse ela tão animada assim para todos nós.

O último capitulo é dedicada à análise da obra de Vieira. Pinto de Castro faz aí um balanço apaixonado e vibrante, do qual não discordo. E concordo especialmente, como escrevi tantas vezes, com a ideia da existência de uma profunda unidade na obra de Vieira, ainda pouco considerada numa fortuna crítica aturdida pela ideia de um Vieira múltiplo e contraditório. No entanto, já não é difícil ver que boa parte dessa visão esquizofrénica do jesuíta advém do mau entendimento do funcionamento de categorias de uma época que não conhece a especialização dos saberes, a morte de Deus, o Estado laico, a igualdade entre as gentes, o relativismo religioso ou antropológico, o cepticismo cientificista, a democracia representativa etc.

Gosto menos quando Aníbal Pinto de Castro deixa oscilar a unidade ao sabor de velhas fórmulas estilísticas como a dialéctica barroca do claro-escuro. Gosto ainda menos quando, para não deixar perder o vibrato cívico da peroração, sopra a tuba sonorosa do Vieira que representa «uma das manifestações mais altas da capacidade criadora do espírito lusíada», «da nossa portugalidade». Do tom retumbante só me alivia o peito que não fale em «brasilidade», categoria-irmã que, no Brasil, não poucas Academias fizeram vibrar em nome de um Vieira de génio «brasileiro», ou no mínimo «luso-brasileiro». Por mim, acho que Vieira podia passar sem esse tipo de investimento de representação substancialista cívica, pois seja «espírito», «portugalidade» ou «brasilidade» é tudo invenção bem menos viva e poderosa do que a escrita dos textos que, estes sim, são de Vieira e de mais ninguém.


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