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Alberto Pimenta — Tanto fogo e tanto frio. O último sonho de Olímpio ; e Prodigioso Acanto

Por Pedro Eiras, publicado em 7.11.2008 na secção Recensões Críticas

Alberto Pimenta — Tanto fogo e tanto frio. O último sonho de Olímpio. Lisboa: & etc, 2008. Prodigioso Acanto. Lisboa: & etc, 2008.

Dois livros de Alberto Pimenta, dois poemas, dois saldos da tempestade da História: brainstorming sobre ruínas, a cultura, a literatura, a civilização, vento que empurra implacavelmente anjos, decerto de asas partidas.

Começo pelo livro mais recente: Prodigioso Acanto, de Junho de 2008. Sendo um poema (tripartido, afirmando recusas e afinidades electivas, mas sem dialéctica simples e decerto sem síntese), pode evocar também um ensaio, descrição, arqueologia e avaliação do motivo do acanto na(s) arte(s). Mas ensaio ou canto que se recusa a sê-lo, num Leit motiv: «não canto cinzas» (p. 21), «não canto primazias» (p. 45), «não canto / metamorfoses» (p. 47)… E ainda, com consequências várias: «não canto / já foi demasiado cantado / e contado / até por Homero» (p. 11), ou «aqui não há nada para cantar / só guerras» (p. 31), numa revisão do – ironicamente convocado – paradigma épico. Cano virgiliano ou Cantando espalharei camoniano ecoam, para serem logo rasurados. E decerto não só porque a matéria se esgotou em milénios de epopeia («então porque / haveria eu / de gastar o meu canto / no que já está gregorianizado», p. 17, sendo que «gregorianizado» evoca também o furioso pensamento da «grei»), mas sobretudo porque, sob a História, há um ethos por interrogar, como em célebres poemas de Brecht:

eu não canto a destruição
depois da construção
uma feita só para a outra
nunca vejo o começo
só o fim
e alguns escravos
entretanto esmagados

(p. 9.)

Voltarei a Prodigioso Acanto. Mas relembro agora Tanto Fogo e Tanto Frio, livro de Fevereiro de 2008, subintitulado O Último Sonho de Olímpio. Olímpio é Olímpio Ferreira, artista gráfico sensibilíssimo – ou, como escreve Vítor Silva Tavares na comovente introdução do livro, «artesão», bem longe de contemporâneos «designers escolásticos» (p. 13). Olimpo Ferreira, artesão da & etc, da Averno, da Cotovia, faleceu inesperadamente em Dezembro de 2007. Este último sonho, ou despedida, é um extenso poema de fôlego único, dividido entre duas vozes, uma delas dita off e destacada à direita. Não importa demasiado identificar quem fala e quem responde: o autor e o seu outro? o escritor e o artesão? ou mesmo, numa fusão sempre arriscada entre vida e escrita, Alberto Pimenta e Olímpio Ferreira? Nem sei, nessas leituras, quem estaria off – aquele que parte, aquele que fica? Importa, sim, observar como Alberto Pimenta escusa as identificações, deixando que as vozes sejam somente vozes; e observar a teatralidade latente que contrapõe e faz dialogar dois olhares sobre textos, imagens, ecrãs, histórias. O mesmo é dizer: para lá do diálogo a dois, há um dialogismo infinito em que tudo (recordações da História, ruínas, alternativas) fala. Assim, é certo que «no meu ecrã / sou eu que mudo tudo / mas tudo / já está escrito» (p. 23), e que «isto / é só uma viagem / à roda do meu quarto» (p. 24), com ecos de Xavier de Maistre ou Garrett; mas sobretudo, para além de qualquer fechamento solipsista, há esta irrupção de uma História plural, interminável: «donde vêm tantas bocas / sem corpos só / fragmentos sem fala / sem nada» (p. 30).

Em ambos os poemas, um saldo da História, portanto. Em Prodigioso Acanto, com o inventário de acantos a escala mundial e intemporal; mas apenas para descobrir quanto ficou por dizer sob os ornamentos com que a sociedade do espectáculo («não canto / acasos de espectáculo», p. 50) vai esquecendo os seus escravos esmagados, que esculpem acantos e não se reconhecem em cantos. História, pois, de uma alienação: eu fiz isto, mas eu não sou este, eu não estou aqui. E, claro, não se trata de uma nova Metamorfose das Plantas, com que Goethe procura conjugar, romanticamente, sistema e plasticidade, os corpos factuais e a possibilidade. Os acantos são artifícios rígidos, disfarçados de flexíveis, e posam como divinos. Quem os descreve, pelo contrário, reivindica a condição profana (talvez com um eco de Caeiro?): «acanto sempre acanto / mas eu não conheço / a bebida dos deuses / não canto / / [...] / a minha respiração / é normal e simples e humana / nada a deixa eternizar-se» (p. 20). Em Tanto Fogo e Tanto Frio, por seu turno, mesma vontade de recuperar, na herança da História (ou na feitura de um livro?), as rasuras ainda audíveis: se «a tarefa foi sempre / arquivar / o sobrenatural» (p. 26), a escrita oferece-se como sobre-natureza, planta viva, não adorno, coisa que se pode comer, não alienação.

Os poemas são um juízo da História; e não um Juízo Final, salvo se Juízo Final profano – e uma sensação de contra-relógio, de contagem final, de tempo finito, enfim, de apocalipse atravessa os poemas. Mas o profano é dito imediatamente no significante «acanto», que é uma unidade lexical simples, mas também «a canto», sendo «a» pronome feminino (donde: canto-a), e ainda «a-canto», sendo «a-» prefixo de negação (donde: não-canto). O a-canto é a única possibilidade política de recusar uma História errada. Não é, em rigor, uma aporia; mas é uma recusa de cantar, pelo menos de determinado cantar. Para, finalmente, recuperar o ethos da própria linguagem e, então sim, recomeçar sobre ruínas.

Os dois livros reencontram essa possibilidade de falar (isto é, escrever, isto é, editar, publicar, formar o livro) através de cumplicidades. A recuperação da voz não é um problema teórico, mas uma atitude política, aqui e agora. Em Tanto Fogo e Tanto Frio, por um diálogo que vai adiando a morte; num novo Leit motiv¸ a recusa de um enterro?: «Silêncio / aí ao lado / cortem depois / a madeira / há tempo» (p. 27). Ou, se leio bem aqui uma prosopopeia da morte,

o tempo cobre tudo
também descobre
o nome é tabu
pensa pensa
quem pode ser a tua rainha
a grande rainha
ainda
não percebeste bem

(p. 44.)

O «tempo» é decerto o tempo da História; mas também, e sobretudo, o tempo imanente em que duas vozes dialogam: tempo contado. Dito de outro modo: o tempo da História só tem sentido enquanto se participa nele com o outro. E por isso os dois tempos se confundem. Mas sem conformação. Decerto numa recusa implícita da lembrança de Mário de Sá-Carneiro por Fernando Pessoa, Vítor Silva Tavares pergunta-se, na introdução do livro: «Que deuses (dos todos Olimpos inventados ou a inventar) serão esses capazes de ‘amar’ matando cerce?» (p. 9.)

Em Prodigioso Acanto, a cumplicidade é outra: contra o canto do acanto, quem assina o poema diz também: «e quando cantar / [...] / / será um nome / com vida / própria sua / não pode ser / senão um nome / ele próprio monido / (moneo) de carne» (p. 57). O nome com vida própria não é o acanto com vida alheia, isto é, vida conferida por uma instituição que assim se rentabiliza; nem, em Tanto Fogo e Tanto Frio, «bocas / sem corpos só / fragmentos sem fala» (p. 30); nem nome de epopeia ou de metamorfose ovidiana que, sob a fluidez da transformação, se converteu afinal em moralidade rígida, mito para consumo. Prodigioso Acanto revela-se, então, poema de amor – e amor erótico, não «platónico», antes apollinairiano, pelo intertexto das «nove nacaradas aberturas / da carne» (p. 59). O «a» de «acanto», unidade mínima, torna-se agora nome do feminino, ou dedicatória:

e então
eu a canto
a canto
como ela
se canta
e assim se ouve
a sua alma
e o seu corpo
e não há prodígio aqui

(p. 58.)


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