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José-Emilio Nelson - Bibliotheca escatologica

Por Pedro Sena-Lino, publicado em 18.5.2008 na secção Recensões Críticas

José-Emilio Nelson - Bibliotheca escatologica. Famalicão: Quasi, 2007

José Emílio-Nelson é um poeta inclassificável. Como acontece nos poetas que o são, é a sua poesia que esmaga as próprias tentativas de geografá-la em termos periodológicos ou influenciais. Iniciando a sua publicação em 1979, mas bem integrado na poesia dos anos 80, talvez tenha apenas como parentes proximamente distantes o Experimentalismo de Alberto Pimenta, ou o pouco de abjeccionismo que algum Surrealismo em Portugal tentou. Porém, a sua poesia foge a estas amarrações, e embora pós-experimentalismo e pós-abjeccionismo estejam presentes, é sobretudo o confluir muito próprio de temas estruturais não frequentes na poesia portuguesa que o marcam. Não digo que Emílio-Nelson seja o único a trabalhar estes temas, mas aquele que os mistura e trabalha com uma coerência fulgurante desde o início da sua obra: corpo e seu limite, sexo, religião e sadismo, simbólica teológica e negra, paradoxo e intertexto, colagem e sarcasmo, barroco e pós-moderno. A confluência coerente e inquieta de todos estes traços torna o seu poema uma habitação inquieta, agitada entre referências contrastantes, original e multímoda. Mas é sobretudo o corpo como altar textual quase santificado pelo sacrílego que o leitor encontra numa primeira e devorante leitura.

O livro divide-se de facto em duas partes, «O Olho Intrusivo» e «Miscelânea Curiosa», mas sobretudo entre dois tipos de poemas, que em traços gerais respeitam esta divisão, mas com algumas excepções: reflexões sobre a voz poética (como os três primeiros poemas, e «Miserere mei Dei»), onde o imaginário escatológico vibra e acende o texto); e meditações descritivas a propósito de (um quadro, um lugar, uma cor, uma associação). Se o primeiro grupo traz uma violência constante mas também relativamente nova à obra de Emílio-Nelson, o segundo caracteriza uma especificidade da sua poesia: entrecortando o texto com apartes, marcados por parêntesis, dialoga quase narrativamente com o olhar e as associações do leitor, conversa hipertextualmente. Como notámos anteriormente, é através da ironia, da sátira, da colagem (de motes e versos de outros poetas, sobretudo barrocos, de quadros, desse mesmo período, de situações do quotidiano, de tipos sociais ou comportamentais) que se estabelecem dentro do poema como que duas linhas, lírica e anti-lírica, por vezes, dialogal e meditativa, em que se dialoga com a própria leitura do leitor. Destes poemas, que marcam continuidade com o melhor de A Alegria do Mal (2005), destacamos «Leitor Imotivado» ou «Sala de Arquivos», ou o muito conseguido «Lições anteriores». Aqui o leitor é levado pelos versos e pelo diálogo desconstrutivo a repensar o que é o «Belo»:

Em que balança pesas o Belo?

Ergue-o, coaxa, pesa o coaxar, batráquio, fechado na [Caverna, afina

A filigrana (em forma sentimental).

Sopra, unhas negras, atado

E bate («se defeca, se bufa»), Raspado nas têmperas.

No resto, cadáver imundo.

(p. 20.)

Há que notar, igualmente, que neste segundo corpo de poemas, alguns poemas em prosa, com o seu carácter mais narrativo, abrem uma dimensão diferente na sua poesia que não mantém a tensão erótica e multi-significante dos outros textos – embora o poema em prosa seja um território que à partida se liga programaticamente bem com a obra de Emílio-Nelson.

No primeiro grupo, atentem-se aos grandes poemas sobre a voz. «Língua bífida» abre como arte poética, como quadro da dicção. Serpente, a voz é simultaneamente rasa e proibida, «da falsa verdade, falsa, bifurcada, com que obscurece o mal-estar», «manha, chão do riso, coreto das marionetas» (p. 11); e elevada, antiga, antes do bem e do mal, o seu cruzamento indissolúvel mas dividido dentro do homem: «Voz que se eleva e crava a carne,/ Erguendo-se às alturas, no jugo, em cera» (p. 11). Tom e dicção poética estão profundamente unidas num programa quase abjeccionista. Procura-se aqui o movimento primeiro humano, do sublime ao animal, que é a energia fundamente humana – a primeira energia é erótica. Bataille no seu O Erotismo já o escrevera, clarividente corpo: «Falarei sucessivamente dessas três formas, a saber: o erotismo dos corpos, o erotismo dos corações e, finalmente, o erotismo sagrado. Falarei dessas três formas a fim de deixar bem claro que nelas o que está sempre em questão é substituir o isolamento do ser, a sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda.»

José-Emílio Nelson marca essa energia primacial erótica no seu estilo por uma sintaxe tentacular, de enumerações multidireccionais; pelo gosto dos ritmos quebrados, captando a atenção do leitor pelo seu bruitismo emocional. No primeiro poema a sequência de aliterações lança vergastadas nas suas repetições e nas suas quebras repentinas: «Desforra de forma a profanar,/ Ainda com a saliva da santa enclausurada». Ou no poema «Musas»: «Desce, crispa-se, rasga e conspurca, escorraça, perscruta». A sua linguagem metafórica é percorrida pela devastação, de metáforas longas, entre o sublime religioso e o sexual obsessivo, com sugestões de violência no contraste entre os elementos da comparação («santa de ‘maxilar no ânus’», «o coro esfola-se pela Beleza».)

Na poesia mais recente, nunca em escalas tão altas de contrastes, de uma heresia santificante da linguagem, se escreveram culpa e corpo, redenção pela perfuração, sexo como altar, luz e sémen.


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