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N.º 179, Jan.-Abr. 2012 — Paisagem

Por Revista Colóquio/Letras, publicado em 10.1.2012 na secção Notícias

Colóquio/Letras n.º 179

Sê atrevido — e levanta, nem que seja só em imaginação, a tua própria árvore, nos sítios mais inesperados. E principalmente que ela atravanque tudo, suspenda a lufa-lufa dos negócios, se oponha, escandalosa, aos frenéticos automobilistas e os obrigue a fazer grandes desvios, para não baterem nela e nela acabarem por apodrecer encaixotados, como pobres mortais que são!

Alexandre O’Neill

“A paisagem literária constitui uma das mais interessantes manifestações da natureza histórica do lugar e da forma como este configura as relações do humano com o que imagina enquanto transcendente. […] Uma paisagem nunca se limita a ‘estar aí’. Ela constitui-se como um acontecimento que o sujeito constrói na história.” Assim parte Helena Carvalhão Buescu para a sua análise do espaço humanizado da paisagem em alguns exemplos provenientes da literatura portuguesa (Garrett, Nobre, Antero, Brandão, Carlos de Oliveira).

Ana Paixão, por sua vez, estuda as perspetivas da paisagem na arte portuguesa contemporânea (com exemplos colhidos nas obras de Ângela Ferreira, Teolinda Gersão, Alexandre Delgado e Manoel de Oliveira).

Carlos Reis revisita o “espaço estreito, afrancesado e provinciano” de Lisboa pelo olhar exterior-estrangeiro de Fradique Mendes, olhar “também reticente para com os entusiasmos dos supercivilizados Jacintos devotos ‘de uma enorme Cidade, com todos os seus vastos órgãos funcionando poderosamente’”.

Ana Maria Freitas analisa um conto inédito de Fernando Pessoa, “A Perversão do Longe”, em que o narrador lança do Cais das Colunas um olhar sobre a Outra Margem e sobre o Universo, num movimento de passividade e masoquismo próximo, segundo a autora, do da “Ode Marítima” do heterónimo Álvaro de Campos.

Susana Neves fala-nos do “duelo” levado a cabo por alguns autores portugueses contra os “desarvorados” da Revolução Industrial: entre os primeiros, António Nobre, Ramalho Ortigão, Aquilino Ribeiro, Jorge de Sena, Alexandre O’Neill, Natália Correia, Eugénio de Andrade, Sophia, Ramos Rosa, Herberto, Luiza Neto Jorge, Al Berto, Nuno Júdice ou Lídia Jorge. “A exaltação da árvore, feita pelos escritores durante o século XIX e ainda no princípio do século XX, expressava um ciclo de intimidade que vai desaparecendo gradualmente. Nas cidades, os escritores perdem a vivência quotidiana do bosque, o contacto com a árvore gigantea, ‘floresta’ num ‘tronco só’. […] À medida que os ‘desarvorados’ prosseguem na sua sanha destrutiva contra as árvores, mais elas se impõem e interiorizam na literatura, forjando-se uma consciência nova sobre todos os tipos de floresta, a antiga, a mítica, a industrial dos séculos XIX e XX, e a visão de um novo bosque numa nova Terra.”

Ida Ferreira Alves desvenda os “caminhos sobre o mar” na poesia de João Miguel Fernandes Jorge, enquanto Mário Avelar nos dá alguns exemplos da representação do topos do rio na pintura e na literatura, no período compreendido entre o romantismo e o modernismo. Ana Isabel Queiroz encerra o dossiê sobre a paisagem com uma reflexão sobre o potencial pedagógico da fábula A Montanha da Água Lilás, de Pepetela, “evidenciando uma leitura capaz de contribuir para pensar nos temas ambientais da atualidade e gerar atitudes compatíveis com a partilha solidária dos recursos naturais e a sustentabilidade”.

António Coimbra Martins compara o Gigante Ombrone de Lorenzo de’ Medici ao Adamastor e a ninfa Ambra do italiano à Thétis d’Os Lusíadas; Tania Martuscelli encontra aproximações entre o modernismo e o surrealismo portugueses e Fernando J. B. Martinho escreve sobre a obra de M. S. Lourenço, autor de O Doge, atribuído ao Arquiduque Alexis-Christian von Rätselhaft und Gribskov.

O n.º 179 inclui ainda poemas de Teresa Balté e Elisa Andrade Buzzo e três contos de José Ricardo Nunes. Vasco Rosa apresenta um quase-inédito de Ruy Cinatti escrito no início da II Guerra Mundial. A crónica (sobre o 9ème parisiense) é assinada por António Mega Ferreira e as ilustrações são de Sofia Areal.


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