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Gil Vicente - Auto da sibila Cassandra

Por José Augusto Cardoso Bernardes, publicado em 18.5.2008 na secção Recensões Críticas

Gil Vicente - Auto da sibila Cassandra. Organização, tradução e notas de Alexandre Soares Carneiro e Orna Messer Levin; apresentação de Cleonice Berradinelli; ensaio de Leo Spitzer. São Paulo: Cosac Naify, 2007

1. Apesar de ser regularmente estudado nas escolas portuguesas e brasileiras desde há muitas décadas, não se pode dizer que Gil Vicente seja bem conhecido da generalidade dos cidadãos. Nem isso seria expectável, tendo em conta a extensão e a complexidade da obra em apreço. Em Portugal, acreditamos que, dos cerca de 50 autos que integram o Livro das Obras, apenas uma escassa meia dúzia é hoje identificável pela grande maioria do público culto. Já houve tempos em que se propunha aos alunos do Ensino Secundário a leitura (parcial ou obrigatória), de 8 autos; porém, com a recessão geral dos conteúdos literários nos programas de Português, a presença vicentina no cânone escolar dos Ensinos Básico e Secundário restringe-se hoje a duas peças de leitura obrigatória. E não surpreende que esses textos (Barca do Inferno ou Índia e Inês Pereira) fixem a imagem de marca do maior dramaturgo português de todos os tempos, vulgarizando-o como «cronista» do «grande século» de Quinhentos, lúcido e corajoso satirista das nossas ilusões imperiais.

Ora, como sabem os leitores mais afeiçoados, sendo excepcionalmente abrangente e diversa, a obra de Gil Vicente não se deixa aprisionar por lugares-comuns deste tipo. Ao lado desta faceta, que pressupõe, de facto, o compromisso do autor com as circunstâncias do seu tempo, existe pelo menos uma outra vertente, menos valorizada aos olhos do leitor comum. Refiro-me concretamente ao lirismo, considerado nas suas múltiplas dimensões: desde o lirismo aparentemente evasivo da matéria de cavalaria ao lirismo apologético do Natal, normalmente colocado na boca dos pastores.

Não faltam causas para explicar este desequilíbrio de percepção. A primeira delas relaciona-se, desde logo, com o facto de Gil Vicente ter escrito parte da sua obra em Português (cerca de 2/3) e outra parte em Castelhano (cerca de 1/3). O registo bilingue (que, como é sabido, se deve tanto a razões práticas como estéticas) implica, desde logo, que os falantes de Português (mesmo aqueles que estudam o autor na Universidade) ignorem sistematicamente o terço que é escrito em castelhano; por sua vez, os espanhóis têm-se limitado a editar os autos em castelhano, esquecendo a fracção mais extensa da obra, apenas porque está escrita numa outra língua.

2. O caso do Auto da Sibila Cassandra (representado no Natal de 1513, perante a Corte de D. Manuel), revela-se bem ilustrativo a este respeito. A circunstância de a peça ter sido escrita em castelhano originou um relativo descaso por parte dos estudiosos portugueses e lusófilos (depois de I. Salvador Révah, 1959, Margarida Vieira Mendes, 1992, e Maria Idalina Resina Rodrigues, 1999, podem ser consideradas como excepções a esta atitude); em contrapartida, a peça vem suscitando interesse vivo e contínuo por parte de um notável conjunto de hispanistas: refiro-me designadamente às leituras de Thomas Hart (1958), Leo Spitzer (1959), María Rosa Lida de Malkiel (1959), Delgado-Morales (1986) e Stanislav Zimic (1992), qualquer um deles participando num curiosíssimo conflito interpretativo em torno de três focos de interesse: o problema das fontes (sempre muito difícil de discernir em Gil Vicente, numa perspectiva estritamente positivista), a articulação entre as duas partes do auto (a resistência da pastora às propostas de casamento que lhe são feitas por personagens bíblicas e o aparato do Presépio, onde a humildade da Virgem triunfa, de vez, sobre a presunção de santidade acalentada pela pastora) e os diferentes níveis de sentido, propendendo uns para a literalidade e outros para a mais depurada alegoria.

3. Neste quadro, a edição agora vinda a lume no Brasil constitui uma boa surpresa. De facto, contrariando a tendência de seccionamento idiomático que até aqui se vinha verificando, o Auto da Sibila Cassandra é colocado ao alcance do público de Língua Portuguesa, com uma breve mas incisiva Apresentação de Cleonice Berardinelli (sem dúvida, a voz brasileira mais familiarizada com os «segredos» da obra vicentina) e um estudo abrangente e bem informado de Alexandre Soares Carneiro. O volume, criteriosamente ilustrado, inclui ainda o estudo de Leo Spitzer (em versão portuguesa de Orna Messer Levin) originalmente publicado na Hispanic Review (Vol. 27, 1959), o texto do auto (na língua original e em tradução anotada) e uma Bibliografia seleccionada.

No conjunto do trabalho, é justo destacar a qualidade da tradução dos 793 versos que dão corpo à moralidade. E não se tratava de tarefa fácil. Como bem faz notar Cleonice Berardinelli, na sua Apresentação, a dificuldade colocava-se não apenas no plano semântico mas também no plano métrico. E se no primeiro plano, o leitor mais habituado ao castelhano e ao português do século XVI pode discordar de uma ou outra solução (designadamente da tradução demasiado literal de algumas locuções proverbiais que, em Português, perdem inclusivamente impacto dramatúrgico – v.g. «Ni esta paja me dé» por «Dá cá aquela palha», p.69), há que louvar muito os resultados no plano métrico, uma vez que neles se preserva, quase sempre, a eufonia original. O mesmo louvor merece ainda o trabalho de anotação, orientado para o esclarecimento filológico das expressões mais difíceis, ao mesmo tempo que não se exime ao rastreio de cruzamentos intertextuais inovadores e ao consequente estabelecimento de algumas linhas de interpretação.

Com este empreendimento modelar (a anteceder outros do mesmo tipo?) o público de Língua Portuguesa deixa assim de ter desculpa para não apreciar um dos autos vicentinos mais emblemáticos. Quem agora se abeirar da Sibila Cassandra, pela primeira vez, eventualmente seduzido pela facilidade da tradução, pode inclusivamente verificar que está perante um exemplo bem representativo da arte vicentina, a vários níveis: na forma como no auto se incorporam livremente vários subtextos (da tradição bíblica à novela de cavalaria e às matrizes greco-latinas), na colocação de circunstâncias concretas ao serviço de uma coerência doutrinária (os temas do orgulho e da humildade são aqui abordados com uma profundidade e um desenvolvimento que se situam bem para além do que o caso de Cassandra exigiria). O que de mais caracteristicamente vicentino existe na peça é, sobretudo, a maneira de conjugar Sátira e Lirismo no seio do mesmo auto: a primeira parte, de teor predominantemente satírico, envolve a crítica a um determinado modelo de casamento (ou ao casamento, em si mesmo), abarcando, em simultâneo, a presunção da pastora que se recusa a casar por entender que nela se hão-de cumprir as profecias da Encarnação do Senhor; corridas as cortinas que deixam ver o Presépio, na segunda parte, os circunstantes convergem todos na adoração do menino nascido em Belém. A própria Sibila se declara então arrependida, entregando-se à oração de Nossa Senhora, de Quem é a verdadeira contra-face. Ora, em Gil Vicente, encontramos esta forma de contrapor a harmonia correctora do Natal ao desconcerto do mundo desde o Pastoril Castellano (1502) repetindo-se depois, no mesmo registo, pelo menos em Quatro Tempos (1513?), Feira (1527) e Mofina Mendes (1534).

Em conformidade com o que se verifica no arquitexto das moralidades, e por detrás de uma complexa moldura alegórica (bem destrinçada por Leo Spitzer), esta peça constitui ainda uma variante da contraposição central que atravessa todo o Livro das Obras, em jeito de catequese social e política, entre o Mal que se denuncia e o Bem que se sugere.


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