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Mário Cesariny de Vasconcelos - Uma grande razão

Por Gustavo Rubim, publicado em 18.5.2008 na secção Recensões Críticas

Mário Cesariny de Vasconcelos - Uma grande razão: os poemas maiores. Lisboa, Assírio & Alvim, 2007

Não posso garantir (pode alguém?) que seja este o mais importante livro editado em Portugal em 2007, mas é seguro que acontecimentos com certa ordem de grandeza na poesia portuguesa actual quase só ocorrem, nos anos mais recentes, por via de antologias ou de traduções. Propondo «os poemas maiores» de Mário Cesariny, Uma Grande Razão reforçou, tanto pela solidez da escolha quanto pela organização dos poemas em livro, essa tendência do tempo. Quer dizer, essa tendência que os tempos vão mostrando para serem, sobretudo, tempos de releitura e revisão do já escrito.

No caso, esta antologia teve obviamente motivações imediatas mais específicas. Saída em Março de 2007, assinalou, com inigualável senso do que seja uma autêntica homenagem, a morte do poeta, quatro meses antes, a 26 de Novembro de 2006. Para cumprir, digamos, directamente essa função, o volume abre com dois textos de leitura mais que recomendável: «O Espelho Vazio», seis magníficas páginas evocativas escritas por José Manuel dos Santos, amigo de Cesariny, e «A Maravilha do Acaso», breve entrevista concedida pelo poeta a Maria Bochicchio em Junho de 2006 e que o semanário Expresso já publicara em 1 de Dezembro desse ano.

O escrito de José Manuel dos Santos, inicialmente editado no Público (8 de Dezembro de 2006), tem o valor de um testemunho raro: o de quem, «durante anos todas as noites», passou «milhares de horas com Mário Cesariny, nos cafés e nas ruas à sua volta» e goza, assim, o privilégio de poder dizer que esse tempo «foi o mais lúcido e o mais bem aproveitado da minha vida» (p. 7). A evocação, muito nítida e impressiva, da «magnífica liberdade de corpo, de alma e de espírito» (p. 9) de Cesariny não pode ser desvalorizada sob seja qual for o argumento: muito além de uma imagem ou de uma história pessoal, o que através dela se perpetua são os traços, emblemáticos como poucos, de uma das mais originais figuras do séc. XX português, que fez da afirmação (teatral e enfática, como os portugueses em geral não gostam) da sua individualidade o exemplo de uma expansão da poesia a todos os planos da existência. Isso mesmo o lembra também a nota anteposta aos poemas pelos editores, visto que, individualmente, ninguém assina a responsabilidade de antologiador. Lembra-o ao dizer que a obra de Cesariny não se esgota como obra escrita, antes é obra «escrita, pintada, exercida» (p. 24).

A tese dos editores, porém, é a de que há para todos os efeitos um «núcleo central forte» (ibid.) constituído por esta cerca de meia centena de poemas, de cujo conhecimento dependerá sempre o conhecimento de todas as partes e modos da obra de Cesariny. A possibilidade de avançar tal tese, sem haver propriamente quem a subscreva enquanto autor, explica-se ao menos em parte pelo conteúdo mesmo da antologia: boa parcela dos poemas escolhidos é objecto de uma espécie de consenso difuso quanto à posição nuclear e cimeira que ocupa entre tudo o que Cesariny escreveu. Estão nesse caso «Corpo Visível», «you are welcome to Elsinore», «autografia I» e «autografia II», os poemas «a antónio maria lisboa» e «a antonin artaud», «pastelaria», «história de cão», «louvor e simplificação de álvaro de campos», os três poemas intitulados «poema» (p. 66, 75 e 77), o dístico «queria de ti um país de bondade e de bruma / queria de ti o mar de uma rosa de espuma» ou o famosíssimo e simples «Ama como a estrada começa» e, claro, «O navio de espelhos» e «poema podendo servir de posfácio», para além do extraordinário poema de cujo primeiro verso, «falta por aqui uma grande razão», se extraiu o título da antologia. Onde a antologia, de resto, cumpre em pleno o seu propósito de homenagear um grande poeta acabado de morrer é nesse gesto de facultar a todos um livro que, juntando estes e outros poemas da mesma ou aproximada grandeza, cria de imediato a percepção do que são, de facto, «poemas maiores», não só nos limites de uma obra particular, mas em absoluto. Torna-se assim uma irrefutável evidência, se ainda o não era, que tais poemas bastam para impor Cesariny no escol dos afinal nem tantos assim que, no século de Pessoa e Pessanha, lidaram de igual para igual com as exigências que Pessanha e Pessoa colocaram à poesia escrita em português.

Há, pois, um laço estreito a ligar a constituição deste corpus sine qua non ao gesto, pacífico mas nada inócuo, de reduzir (na capa) o nome do poeta ao seu apelido mais popular. De Mário Cesariny de Vasconcelos para «Cesariny», o percurso é o que vai de um longo e literário nome de autor para um mito que fica tanto mais incrustado na familiar e íntima identidade idiomática do português quanto nunca perde a sua sensível ressonância estrangeira. E, bem vistas as coisas, talvez calhe ser essa a lógica que melhor explica o caminho que fez Cesariny vir da periferia, para não dizer da marginalidade surrealista onde começou, até chegar enfim ao coração e à cabeça de uma tradição — a da poesia moderna portuguesa — que tem tendências manifestas para se deixar, mais, para gostar de se deixar policiar por toda a sorte de moralismos ideológicos, académicos e literários a que Cesariny, pelo seu lado, nunca deixou de se mostrar ferozmente avesso. Esta antologia e o modo como ela consagra o nosso uso e abuso, fascinado e por isso mesmo ambíguo, do apelido «Cesariny», marcam o triunfo de quem, à semelhança dos seus pares em grandeza poética, precisaram de vir de fora ou de se pôr de fora para inventar o dentro exactamente ajustado à diferença inegociável do seu nome. Não foi isso, contas feitas, o que também aconteceu a Pessanha, a Pessoa, a Sá-Carneiro e poucos mais?

Seja o que for que se responda, Uma Grande Razão dá ampla oportunidade para o leitor se aperceber de como só há «poemas maiores» onde acontece alguma coisa de inesperado, de imprevisível, ao idioma em que tais poemas são escritos. Por muito que se queira reduzi-lo a filho, talvez dilecto, da famosa desenvoltura retórica de Álvaro de Campos, Cesariny inscreve na língua um acontecimento que nem Campos faria prever. A «grande razão» em falta é bem a marca de pertença ao mesmo mundo da modernidade onde as palavras dizem sobretudo o sentido que não encontram mas há, em Cesariny, uma torção afirmativa que liberta o poema da incessante glosa do confronto com o nada. A forma de imaginação verbal que esta escrita põe em jogo fica bem sinalizada nos últimos textos da antologia: «Traduzido por Cabala fonética», o exercício, primeiro para-teórico, depois prático, de tradução dos poemas rimados e metrificados de Une Saison en enfer, de Rimbaud. O que lemos aí é um exemplo daquilo que falta, segundo o poema que dá entrada e nome aos «poemas maiores»: «que todos os amores palavras propensões sistemas de palavras e / de propensões / se comam a si mesmos» (p. 26). A poesia não traz de volta a «grande razão» que falha: antes dá lugar e entrega-se ela mesma a esse exercício de autodevoração da língua pela língua, no termo inexistente do qual já não é dizer ou significar ou mesmo conhecer o que está em causa, mas estender a linguagem até ao ponto extremo em que fique ao seu alcance «tocar com o pulso um sol antigo / lá longe, onde se cruzam as nascentes» (p. 81).


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