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Ruy Duarte de Carvalho - Desmedida. Luanda-São Paulo-São Francisco e volta

Por Clara Rowland, publicado em 18.5.2008 na secção Recensões Críticas

Ruy Duarte de Carvalho - Desmedida. Luanda-São Paulo-São Francisco e volta: crónicas do Brasil. Lisboa: Livros Cotovia, 2006

Quando, em 2000, Ruy Duarte de Carvalho publicou o seu primeiro romance, Os Papéis do Inglês, a proximidade com os dois títulos imediatamente anteriores, Vou Lá Visitar Pastores (1999) e Observação Directa (2000), denunciava a inutilidade de uma classificação de género para uma poética que persegue, ancorada num mesmo terreno, as relações entre palavra e experiência num registo misto envolvendo poesia, relato, ensaio e ficção. Essa mobilidade discursiva (a «meia-ficção-erudito-poético-viajeira», nas palavras do autor) tem entretanto orientado cada vez mais claramente a escrita e reedição desta obra, mantendo sempre uma profunda coerência. Com Desmedida. Crónicas do Brasil, lançado em 2006, o autor angolano de origem portuguesa parecia introduzir uma deslocação de território e de género, abordando a crónica num espaço aparentemente estranho a Angola. No entanto, o livro brasileiro de Ruy Duarte de Carvalho partilhará a mesma obsessiva procura de uma «autocolocação» que o próprio tem vindo a afirmar como determinante, mantendo o livro próximo do imaginário dos anteriores e introduzindo a partir da forma da crónica, na tensão entre o imprevisto («um livro a insinuar-se», p. 42) e o livro que daí resultará, algumas interessantes figuras unificadoras desse discurso transversal.

O título diz-nos, desde logo, que se trata de crónicas de viagem, organizadas em livro, a viagem coincidindo, em vários aspectos, com a escrita do livro; e que essa viagem pelo interior do Brasil é inscrita, enquadrada em relação a um ponto de origem e de regresso, Luanda, que define a «maneira de [se] situar» (p. 163) do sujeito na observação de um país outro: «dizer do Brasil a partir de Angola, a partir da situação nacional que é a minha em relação ao mundo e a Angola (e exactamente só a partir disso)» (p. 42). Essa «situação» implica aqui, por um lado, a familiaridade com a cultura brasileira («Saberei ainda assim que a Ipiranga cruza a avenida São João», p. 55) e o seu papel numa formação identitária individual e colectiva («filho pródigo ciente daquilo que enquanto pessoa deve ao Brasil pelo que desde muito cedo na vida o Brasil lhe deu a ler, a ouvir, a aprender, a ver e a imaginar», p. 319), e por outro a relação específica (e não mediada pelo eixo europeu) entre dois países lusófonos do hemisfério Sul, as intersecções e contiguidades entre dois espaços que são «substância da expansão». É sobretudo nesse diálogo que o discurso das crónicas irá investir. No entanto, essa mesma inscrição da origem determinará a necessária perturbação e desvio do percurso traçado no título. No roteiro e no modo como do roteiro a viagem se desvia decide-se a forma e a unidade do livro e o modo como exploração e escrita poderão ser jogadas numa temporalidade definidora.

O livro e a viagem

Desmedida ganha a sua unidade do roteiro de que parte, numa aparente linearidade que o texto se encarregará mais tarde de desmentir. O projecto da viagem e o projecto do livro surgem unificados, sintomaticamente, pela escolha do Rio S. Francisco como eixo e centro do percurso: o ponto de partida, inicialmente, é literário – «sou estrangeiro aqui e nada e impede de incorrer no anacronismo de querer ir ver, de perto, Guimarães Rosa e Euclides da Cunha...» (p. 15) –, e começa por ser a procura, ainda só em viagem, do que dinamiza «o potencial e o espectro da parte emotiva da [...] relação com as paisagens» (p. 86), das «paisagens propícias» para uma experiência que nasce da leitura. É a partir daqui, como veremos, que Desmedida irá desenvolver uma narração que cruza ecos literários com a narrativa de viagens num permanente confronto com o modo como a linguagem se articula com os mundos que nomeia – a «extracção» que tanto ocupa a obra poética do autor. É assim que seguir o rastro do sertão «ficcional, e às vezes fictício, e não raro fictível da referência rosiana, que persisto e insisto em reter como guia» (p. 97), será também, necessariamente, procurar um confronto com aquele «poder para descrever paisagens que nunca viu» que o narrador atribui a Blaise Cendrars e indirectamente a Rosa, conferindo à viagem uma paradoxal dimensão de testemunho da palavra. E o percurso pelas paisagens ditas não pode senão levar à interrogação da linguagem a usar numa escrita que fala de e com outras vozes. Será também esse o diálogo de Desmedida: o que vai encenando diferentes tons, colocações e destinações de acordo com o mapa da viagem, testando a elasticidade de uma prosa sempre dinâmica, deixando para o fecho o «rasgo ético de uma bibliografia comentada» (p. 316) a explicitar a biblioteca de referências que a narração foi transportando. Na sequência desse primeiro projecto, veremos a voz do narrador tentada por uma incorporação do discurso rosiano, fruto de uma leitura «compulsiva», feita ao longo dos anos e ao longo da viagem, da obra de Rosa – «O real, de facto, não está nem na partida nem na chegada, antes talvez no meio da travessia, revelado, pode ser, por João Guimarães Rosa a quem lhe escute mais do que parece estar dizendo» (p. 98) – para dar enfim corpo, perto do final, à tensão latente do jogo de vozes que sela a interferência entre texto e mundo no encontro em Canudos com as paisagens de Euclides: «Nem sequer conseguirei dizer seja o que for das paisagens que vi sem me obrigar a ir ver o que Euclides poderá ter dito do que terá visto nos mesmos exactos lugares. Tucano e Uauá só me darão a ver memórias que integrei de expedições militares e envolvimentos de Canudos. Mesmo das caatingas que atravessei, se anoto para dizer: sertões fundos, secos, sinistros, vem ele e diz: sertão adusto, horizontes invariáveis que se afastam à medida que o viajante avança com a sensação de não progredir senão na sua própria imobilidade [...]» (p. 302).

Esta primeira linha, de Rosa a Euclides, de Minas a Pernambuco («Só João Cabral me ficaria de fora, mas terei os canaviais do baixo São Francisco», p. 42) irá porém, pela sucessão de acasos e associações que o texto transforma desde o início em princípio estruturador, cruzar-se com um segundo projecto, a tornar possível a ideia do livro: a evocação de anteriores explorações do Brasil – com origem, aqui, na primeira figura de viajante recordada, Blaise Cendrars – põe em cena uma identificação entre o narrador estrangeiro que embarca na viagem pelo interior do país e outros que, na condição de forasteiros, contribuíram para a leitura do Brasil, de dentro e de fora, permitindo assim de forma explícita a inscrição do sujeito numa série que lhe permite interrogar «os passados» da viagem. A descida do rio São Francisco irá então ser construída sobre outras viagens a esse mesmo interior, como as de Richard Burton, Auguste Saint-Hilaire ou Teodoro Sampaio. A partir daí, a interrogação poderá abarcar o problema da relação do Brasil com a sua imagem projectada, o confronto entre litoral e interior, os caminhos e percursos da modernização: o São Francisco de Desmedida é também o eixo identitário brasileiro por excelência, lido a partir da sua importância para o desenvolvimento do Brasil e de uma ideia de Brasil, como cenário de campanhas de desbravamento, como eixo importante da exploração mineira e da migração das populações do Nordeste para São Paulo, e também como tema do actual debate sobre a possibilidade de transposição das suas águas para a irrigação do seco Nordeste. Como rio, em suma, que permite interrogar o conflito e o contraste entre o desenvolvimento e modernização do litoral e a temporalidade arcaica de um interior pastoril, e cruzar, no percurso final pelo Baixo São Francisco, Lampião e António Conselheiro como figuras de uma mesma «desobediência civil». O livro que se insinua, não projectado, é apresentado nesta conjugação de uma memória de leitura com uma interrogação identitária que procure situar Brasil e Angola numa relação que tem o sujeito como ponto de trânsito e de interrogação.

O curso desviado

»Mas também é verdade que se Burton não tivesse ocorrido nesta estória, talvez jamais tivesse ocorrido também, sequer, a hipótese de uma viagem que tivesse o São Francisco em conta e de um livro que não perdesse nunca de vista nem o lugar de onde eu estava a sair nem o lugar para onde, nem que só de mim para mim, onde quer que estiver, estarei sempre a voltar (p. 119)»: a autocolocação, no entanto, provoca um desvio que determinará a forma do livro e a sua articulação. Se é verdade que a inscrição do ponto de partida e de chegada, Luanda, é constante ao longo de toda a primeira metade, o que acontece na transição para a segunda parte não podia estar previsto no roteiro inicial que se insinua com o livro. É no momento em que este se desvia do curso do rio, para a ele voltar apenas na secção final, que se dá a ver, também, a sua essencial complexidade enquanto livro construído. Trata-se de uma viragem que vem reforçar a questão do ponto de vista da exploração, interrogando, na identificação referida, a diferença da inscrição angolana – «Estou-te a falar! Condição de angolano, a do narrador, aqui? Que diferença fará ela para o brasileiro comum da condição de um narrador português aqui [...]?» (p. 202) –, e ao mesmo tempo colocando, à ficção, problemas de narração e destinação vindos de textos anteriores do autor. No final do último capítulo da primeira parte, intitulado «Recuo», o autor suspende temporariamente a viagem, ou mais propriamente sobrepõe o livro à viagem, para voltar a Angola: decide interrompê-la «para meter as [...] notas em ordem» (p. 164), prescindindo de «prosseguir o relato desta viagem delegando na sua própria dinâmica que viesse a tomar» (p. 163). A pausa no roteiro inicial é tanto mais significativa quanto explicita no texto uma dimensão presente através de inscrições ocasionais: parar a viagem para organizar as notas, numa página que se referem as «sequências de montagem» e em que se compara a escrita com a repérage para um filme, introduz nesta construção uma temporalidade mais complexa que se irá instalar definitivamente até ao fim do livro, com o regresso ao São Francisco a pôr termo à viagem. Todas as secções (são 3 por cada uma das duas «metades») têm uma nota indicando o local e o tempo da escrita. Apenas as duas secções da viagem pelo alto São Francisco são efectivamente «escritas em viagem» – todas as outras secções do livro são escritas antes: em São Paulo antes de partir para o São Francisco; em São Paulo, de novo, antes de ir a casa interromper a viagem; em Luanda, antes de voltar ao Brasil e, por último, em São Paulo, antes de regressar definitivamente. Por um lado, é evidente uma reorganização e revisão posterior, no décimo primeiro andar em São Paulo que servirá de espaço de montagem do livro, a impor uma forma à crónica da viagem; por outro, a multiplicação das marcações temporais vem acentuar a ficção de uma escrita anterior à descrição, uma escrita de viagens que voluntariamente se coloca numa temporalidade projectada, e não necessariamente (ainda) vivida – o tempo antecipador da repérage. A viagem interrompe-se, assim, para regressar a Luanda e ir «visitar pastores», mas não sem antes parar em São Paulo para o autor se imaginar a contar o Brasil a esses pastores do Sul de Angola e à personagem «literariamente constituída» (p. 203) de Paulino, já recorrente na obra do autor. Trata-se de uma curiosa inflexão em direcção a terrenos familiares, que revela uma escolha determinante para a voz narrativa – «Vou precisar, de facto, sentir-me à vontade para discorrer como bem entendo» (p. 163) –, traduzida essencialmente numa mudança de ângulo. Suspende-se a interrogação (situada) do Brasil, em diálogo com outras leituras do país, substituindo-a pela encenação de uma explicação do Brasil a quem do Brasil nada conhece e apenas pode compreender o país por meio de contiguidades e comparações – o que implicará, também, a recuperação, numa oralidade fictícia, da história de Angola («o manual dos passados de Angola para uso de pastores e de analfabetos», p. 226). A independência, primeiro, e depois as invasões holandesas, no Brasil e em África, serão o tema dessa conversão antecipada da história em «estórias». A narração oralizada de passados e leituras, desviada e projectada na escrita como momento anterior, constitui a «segunda margem» destas crónicas, onde o livro altera o foco e nega a deslocação – mostrando como passa a olhar Angola a partir do Brasil. A narração, agora destinada («E não terá chegado para mim, também, o tempo de pôr-me agora a falar do mundo para pastores, ao invés de andar a falar de pastores para o mundo?», p. 226), só pode insistir de forma mais radical na intersecção espacial e temporal que a viagem contada proporciona: «A ir pelas picadas de cá, estou lhe a falar de um rio que tem lá, e à nossa volta não tem água nenhuma. Para a frente, quando voltar a falar no assunto, vou lembrar-me é das paisagens daqui. [...] Falei daqui, e agora, aqui, lembrando que estive lá, dá para dar conta que ter lá estado comporta ter falado, lá, de como é estar aqui. Está vendo? Não vale a pena... Você quer explicar. Mas vai explicar mais como?» (p. 182) O diálogo fictício ganha agora o sentido da destinação diferida da «exploração epistolar» de Vou lá Visitar Pastores (que a ficção dos emails em Os Papéis do Inglês prolongava): o problema da relação entre palavra e paisagem é o problema de uma temporalidade heterogénea de que a paisagem é figura, numa verticalidade que implica a inscrição do sujeito que toda a narrativa, no sentido com que aqui é encenada, parece exigir. É no desvio do testemunho para o campo da efabulação projectada que Desmedida completa a sua noção de viagem como exposição à paisagem, pelo trânsito da escrita e da comparação, numa temporalização da experiência do espaço que convoca do mesmo modo passado e futuro: «Vir aos lugares não para vê-los só, nem só para reconstituir-lhes passados, nem registar presentes, mas para cobrar-lhes futuros também. A apropriação de um lugar não passa só por pisá-lo e poder, a partir daí, recordá-lo. Será também poder, a partir de então, reter-lhe a impressão de um qualquer momento futuro, simultâneo ao meu...» (p. 304).

A tensão de tempos que esta escrita da viagem põe em movimento parece articular, nas linhas que tecem o texto, as duas forças que o movem, como livro terminado, vinculado a um percurso agora passado, e como livro futurível que não pode concluir senão abrindo para um novo – de que o texto nos dá o título, o ainda rosiano Terceira Metade. De um lado a montagem, a organização das notas na sua temporalidade recriada, do outro lado a repérage, a antecipação projectada, a suspensão da forma no gesto metaficcional, a fazer lembrar Os Papéis do Inglês, em que a ficção procurada e desmontada tinha o seu lugar apenas em situação de intervalo, num intermezzo intitulado «Como num filme». Da montagem do inacabado como inacabado é que resulta, paradoxalmente, a unidade destas Crónicas do Brasil, inscrevendo na forma do livro a impossibilidade orientada e fragmentária da repérage e fazendo do desvio, espacial e temporal, a forma possível da viagem. E é dessa intersecção que se fala aqui, também, através da referência cinematográfica, constante no percurso de Ruy Duarte de Carvalho, que será figura, como horizonte solicitado, da impossível unificação desta poética construída na fronteira de tempos e discursos heterogéneos: «E pela minha parte talvez afinal não tenha estado nunca em nenhum lugar, e em qualquer tempo, mesmo de uma maneira geral na vida, se não como se fosse para voltar depois e rodar um filme» (p. 164).


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