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HISTÓRIA

Hernâni Cidade (1887-1975)

Director da revista Colóquio/Letras : 1971-1975

Nasceu no Redondo e começou por frequentar o seminário de Évora onde concluiu o Curso de Teologia. Completou seguidamente o Curso Superior de Letras e doutorou-se em Filologia Românica. Foi professor de Liceu em Lisboa, Coimbra e Porto, efectivando-se em Leiria em 1914. Mobilizado como cabo para a I Guerra Mundial, foi feito prisioneiro em 1918. Recebeu a Cruz de Guerra.

Convidado pela Universidade do Porto em 1919, aí exerceu docência até 1930. A partir de 1931 e até 1957, data em que se jubilou, foi professor da Faculdade de Letras de Lisboa. Autor de uma vastíssima obra nos domínios da história da literatura e da cultura, dirigiu, com Joaquim de Carvalho e Mário de Azevedo Gomes, o Diário Liberal (1934-35), colaborou em revistas como A Águia, Seara Nova, O Instituto, Biblos, Atlântico, nas páginas literárias de O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto, Diário de Notícias e em obras colectivas como História de Portugal, dita de Barcelos, Grande Enciclopédia Luso-Brasileira e Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira.

Depois de jubilado — a bibliografia mais completa a seu respeito ainda é hoje a que vem inserta na Miscelânea de Estudos em sua homenagem publicada pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1957 —, Azeredo Perdigão convidou-o para director literário da Colóquio — Revista de Artes e Letras, a par de Reynaldo dos Santos, na direcção artística. A publicação deu à estampa 61 números entre 1959 e 1970, sendo nela bem visível a concepção ampla de cultura das letras que foi a de Hernâni Cidade, pois a par de textos propriamente literários e de estudo da literatura, a revista alarga o seu âmbito à história, à história da cultura e das ciências, à filosofia e à pedagogia. Em 1971 surgem, também editadas pela Fundação Calouste Gulbenkian, duas revistas que dão continuidade à primitiva Colóquio: Colóquio/Artes e Colóquio/Letras, sendo esta última dirigida por Hernâni Cidade — até à sua morte, em 1975 — e Jacinto do Prado Coelho. Ambos os periódicos que dirigiu na Fundação contêm vasto material a seu respeito: quer artigos, recensões e notas por ele assinados, quer resenhas críticas a obras de sua autoria, quer ainda, depois do seu falecimento, variadíssimos testemunhos sobre o seu carácter e a sua actividade docente e de investigação (Colóquio/Letras n.º 23, n.º 24, n.º 29, n.º 83, n.º 96 e n.º 100, sendo de realçar os textos de Luís Filipe Lindley Cintra — n.º 83, onde Cidade é evocado como inovador em termos pedagógicos e condutor dos alunos à investigação — e o de Maria de Lourdes Belchior no n.º 96, onde ficam traçadas as principais linhas da obra de Cidade). Os artigos e notas que ele próprio assinou tanto dão conta de escritores, temas e épocas sobre os quais a sua obra principalmente incide (Camões e o Renascimento, n.os 1, 17, 36 C e n.º 8 C/L, Literatura e Descobrimentos, n.os 37, 42, 54 C, Barroco, n.os 1 e 5/6 C, P.e António Vieira, n.º 12 C/L, Bocage, n.º 35 C, Século XIX, n.os 46, 48 C, n.º 23 C/L), como constituem testemunho da sua longa vida de intelectual do século XX. Estão neste caso o belo texto que publica sobre Música e Poesia, n.º 24 C, o elogio de António Sérgio (com quem colaborou assiduamente em edições dos Clássicos Sá da Costa), n.º 52 C, o testemunho sobre a convivência com Almada, n.º 60 C, e a curiosa carta enviada à revista Athena, de Fernando Pessoa (de cuja importância já se apercebera em 1912), n.º 96 C/L. Cidade recenseou para cima de oito dezenas de livros nas duas publicações, sendo quase metade de literatura contemporânea.

Obra: Ensaio sobre a Crise Mental do Século XVIII (1929), A Obra Poética do Dr. José Anastácio da Cunha: com Um Estudo sobre o Anglo-Germanismo nos Proto-Românticos Portugueses (1930), A Marquesa de Alorna: Sua Vida e Obras, Reprodução de Algumas Cartas Inéditas (1930), Fernão Lopes É ou Não o Autor da “Crónica do Condestabre”? (1931), Lições sobre a Cultura e a Literatura Portuguesas, 2 vols. (1933-1940), Luís de Camões: O Lírico (1936), Bocage (1936), A Poesia Lírica Cultista e Conceptista: Colecção de Poesias do Século XVII, principalmente de “Fénix Renascido” (pref. e notas, 1938), Tendências do Lirismo Contemporâneo: do “Oaristos” às “Encruzilhadas de Deus” (1938), Poesia Medieval: Cantigas de Amigo (pref., ordenação e notas, 1939), João de Barros, Ásia: dos Feitos Que os Portugueses Fizeram no Descobrimento e Conquista dos Mares e Terras do Oriente, 4 vols. (actualização ortográfica e notas, 1945-1946), Padre António Vieira, 4 vols. (sel., pref. e notas, 1940), Marquesa de Alorna: Inéditos: Cartas e Outros Escritos (sel., pref. e notas, 1941), Marquesa de Alorna, Poesias (sel., pref. e notas, 1941), Antero de Quental — Poeta (1942), A Literatura Portuguesa e a Expansão Ultramarina: as Ideias, os Sentimentos, as Formas de Arte (1943), O Conceito de Poesia como Expressão de Cultura: Sua Evolução através das Literaturas Portuguesa e Brasileira (1945), Luís de Camões, Obras Completas, 5 vols. (pref. e notas, 1946), A Literatura Autonomista sob os Filipes (1948), Luís de Camões: O Épico (1950), P.e António Vieira, Obras Escolhidas, 12 vols. (prefácios e notas de António Sérgio e Hernâni Cidade, 1951-1954), Luís de Camões: os Autos e o Teatro do Seu Tempo: as Cartas e o Seu Conteúdo Biográfico (1956), P.e António Vieira, Defesa perante o Tribunal do Santo Oficio (introd. e notas, 1957), Portugal Histórico-Cultural através de Alguns dos Seus Maiores Escritores: Fernão Lopes, Camões e Mendes Pinto, P.e António Vieira, Antero de Quental, Teixeira de Pascoais e Fernando Pessoa (1957), Luís de Camões, A Obra e o Homem (1957), Lições de Cultura Luso-Brasileira: Épocas e Estilos na Literatura e nas Artes Plásticas (1960), Século XIX: a Revolução Cultural em Portugal e Alguns dos Seus Mestres (1961), Antero de Quental, A Obra e o Homem (1963), Padre António Vieira, A Obra e o Homem (1964), Bocage, A Obra e o Homem (1965), Bocage, Opera Omnia, 2 vols. (dir., 1969).


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